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Ciência

Crise nos ventos: os desafios que ameaçam a energia eólica no Brasil

O setor de energia eólica enfrenta obstáculos inesperados, comprometendo seu crescimento no Brasil. Mudanças regulatórias e dificuldades operacionais desafiam um dos pilares da transição energética no país.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Nos últimos anos, a energia eólica ganhou grande destaque no Brasil. Em 2023, foram inauguradas 123 usinas desse tipo, principalmente no Rio Grande do Norte e na Bahia. Com uma extensa faixa litorânea e ventos constantes, o Brasil parecia ter encontrado uma fonte energética promissora e sustentável.

No entanto, o cenário mudou drasticamente. A General Electric encerrou sua fábrica de pás de turbina em Pernambuco, a fabricante Aeris acumula prejuízos e demissões, e a americana AES desistiu de operar no país em 2024. O setor enfrenta uma tempestade que ameaça seu crescimento e estabilidade.

O apagão que desencadeou a crise

O marco dessa crise ocorreu em agosto de 2023, quando um apagão deixou milhões de brasileiros sem energia por seis horas em 25 estados e no Distrito Federal. A falha teve início em uma linha de transmissão no Ceará, causando um efeito dominó na rede elétrica nacional. A queda na tensão deveria ter sido compensada por usinas eólicas locais, mas os equipamentos falharam, ampliando o problema.

Como resposta, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aplicou multas a diversas empresas do setor, e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) endureceu as exigências para a operação das usinas eólicas.

O impacto das novas restrições

O ONS passou a limitar a produção das usinas eólicas por meio do chamado curtailment, mecanismo que restringe a geração de energia para evitar instabilidades no sistema. Embora essa prática já existisse, ela se tornou mais rigorosa após o apagão de 2023. As empresas do setor relatam perdas crescentes devido a essa limitação.

Outro fator que intensificou a crise foi a concorrência com a geração distribuída de energia solar, que permite que consumidores gerem sua própria eletricidade e recebam descontos na conta de luz. Essa modalidade já representa 36 GW de potência instalada no Brasil, superando os 33 GW da energia eólica.

Com as restrições e a competição crescente, as usinas eólicas operam abaixo de sua capacidade total. Em 2024, estima-se que o curtailment tenha resultado em uma perda de 10% da geração total do setor. Segundo a consultoria Volt Robotics, isso representou um prejuízo de R$ 1,6 bilhão para as empresas eólicas no ano.

A desaceleração dos investimentos

A crise se reflete na redução dos investimentos no setor. Em 2024, foram instalados apenas 3,3 GW de nova capacidade eólica no Brasil, uma queda de 31,25% em relação aos 4,8 GW de 2023. O número de novas usinas caiu de 123 para 76 no mesmo período.

Com o aumento das incertezas, grandes empresas reconsideram seus planos no país. A AES, que apostou fortemente na energia eólica brasileira, abandonou suas operações. Fabricantes de equipamentos eólicos também enfrentam dificuldades, levando a fechamentos de fábricas e milhares de demissões.

A mobilização do setor

As empresas eólicas e suas associações buscam soluções para reverter esse cenário. Entre as principais reivindicações estão:

  • Revisão do curtailment: O setor argumenta que os cortes de geração estão prejudicando a viabilidade econômica das usinas eólicas.
  • Indenizações pelas restrições de geração: As empresas defendem compensações financeiras pelas perdas causadas pelas limitações impostas pelo ONS. A Aneel, no entanto, rejeita a ideia, afirmando que não é razoável que os consumidores paguem por energia que não foi utilizada.
  • Incentivos fiscais para fabricantes: As indústrias que produzem equipamentos para energia eólica buscam apoio para exportação e maior taxação sobre produtos importados da China.

A aposta nas eólicas offshore

Uma possível saída para impulsionar o setor é o desenvolvimento da energia eólica offshore, que utiliza turbinas instaladas no mar. Em janeiro de 2024, o presidente Lula assinou um marco regulatório para regulamentar essa atividade, permitindo que empresas obtenham concessões para explorar a energia dos ventos em áreas marítimas sob domínio da União.

Apesar desse avanço, a crise da energia eólica terrestre continua sem solução. O setor enfrenta desafios regulatórios, técnicos e econômicos, e ainda não há sinais de recuperação no curto prazo.

[Fonte: Invest News]

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