O desmatamento na Amazônia Legal atingiu seu menor nível em quase quatro décadas de monitoramento. Dados divulgados em 16 de outubro mostram uma redução de 41,8% em relação ao período anterior. O resultado estabelece um novo marco na proteção da floresta, mas exige uma leitura cuidadosa: a derrubada desacelerou, enquanto milhares de quilômetros quadrados de vegetação continuaram desaparecendo. Manter essa trajetória será o próximo desafio.
Uma queda que supera o recorde de 2012

Segundo os dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente, a área desmatada passou de 5.731 para 3.335 quilômetros quadrados. O levantamento considera o intervalo entre agosto de 2025 e julho de 2026.
O índice é o menor desde o início da série histórica, em 1988. Até agora, o melhor resultado havia ocorrido em 2012, quando o monitoramento registrou 4.571 quilômetros quadrados de desmatamento.
Pará, Mato Grosso e Amazonas concentraram as maiores áreas derrubadas no levantamento mais recente. Os três estados registraram, respectivamente, 1.130, 849 e 525 quilômetros quadrados.
O Cerrado também apresentou melhora. A perda de vegetação nativa caiu 23,8%, chegando a aproximadamente 5.517 quilômetros quadrados, o menor valor de sua série histórica, iniciada em 2001.
Fiscalização e continuidade das políticas entram no centro do debate
Para o Greenpeace Brasil, a redução demonstra a importância de recuperar políticas de proteção, fortalecer instituições ambientais e manter instrumentos de fiscalização.
A organização atribui o avanço à recomposição da capacidade de atuação do poder público. Também considera que os números reforçam a possibilidade de alcançar a meta de desmatamento zero até 2030.
Entretanto, a entidade alerta que a continuidade da queda depende de decisões políticas. Na avaliação de Cristiane Mazzetti, coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, enfraquecer órgãos de controle ou desmontar mecanismos de proteção pode comprometer os resultados.
A organização também aponta riscos associados a mudanças na legislação ambiental. Seu diagnóstico é que o recorde precisa vir acompanhado de estabilidade institucional para produzir benefícios duradouros. Greenpeace Brasil
Menos desmatamento não significa ausência de incêndios

Os números anuais não representam todas as formas de dano à floresta. O Prodes mede a supressão de vegetação, enquanto incêndios podem atingir áreas já abertas ou degradar florestas sem provocar sua remoção completa.
Além disso, o levantamento de 2026 termina em julho. Portanto, episódios de fogo registrados em outubro ficam fora desse intervalo. Essa diferença ajuda a entender por que uma queda anual do desmatamento pode coexistir com notícias preocupantes sobre queimadas.
Novas ferramentas devem ampliar o monitoramento
O governo também anunciou recursos para aperfeiçoar a observação dos biomas. Conforme o BNDES, o Fundo Amazônia destinará R$ 147,6 milhões ao Sistema Integrado para Monitoramento da Vegetação Natural dos Biomas Brasileiros, chamado SIM-Biomas.
O projeto prevê integrar o Prodes ao Deter, sistema que produz alertas em tempo quase real para apoiar a fiscalização. A proposta combina a precisão do levantamento anual com informações mais rápidas sobre alterações na vegetação.
O uso de inteligência artificial deverá ajudar a identificar desmatamento, degradação e recuperação de áreas naturais. Também estão previstos indicadores para apontar regiões com maior risco ambiental no curto prazo.
O apoio inclui melhorar o detalhamento do monitoramento de áreas queimadas e ampliar a cobertura dos alertas. Com execução prevista em 60 meses, a iniciativa pretende fornecer informações mais úteis para prevenção e controle.
O recorde atual mostra uma redução importante da destruição. Sustentar esse avanço exigirá transformar os dados dos satélites em fiscalização e proteção contínuas no território.