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Ciência

Existe uma tecnologia subterrânea capaz de ajudar florestas contra secas e incêndios — e ela está viva

Uma imensa rede biológica escondida sob nossos pés pode melhorar o solo, favorecer plantas e aumentar a resiliência dos ecossistemas. Agora, pesquisadores querem aproveitar melhor esse potencial.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em tecnologias capazes de enfrentar secas, recuperar solos degradados ou tornar florestas mais resistentes, imaginamos sensores, satélites e máquinas. Mas uma das ferramentas mais sofisticadas pode estar funcionando silenciosamente sob nossos pés há milhões de anos. O micélio, rede subterrânea formada por fungos, participa da circulação de nutrientes, influencia a estrutura do solo e estabelece relações fundamentais com plantas. E seu potencial está atraindo cada vez mais atenção.

O verdadeiro organismo está escondido debaixo da terra

Aquilo que normalmente chamamos de cogumelo é apenas a estrutura reprodutiva de determinados fungos. Grande parte do organismo permanece escondida no solo, na madeira ou em outros substratos.

Ali se desenvolvem as hifas, filamentos microscópicos que, juntos, formam o micélio.

Essas redes podem se espalhar pelo solo e participar diretamente da decomposição da matéria orgânica. Algumas espécies também estabelecem associações chamadas micorrizas com as raízes das plantas.

A relação pode beneficiar os dois lados. A planta fornece ao fungo compostos ricos em carbono produzidos pela fotossíntese, enquanto o fungo amplia a área de solo explorada e pode facilitar a obtenção de nutrientes e água.

Segundo o Serviço Florestal dos Estados Unidos, essas associações são extremamente comuns nos ecossistemas terrestres e desempenham um papel importante na saúde das plantas.

Não se trata, portanto, apenas de cogumelos crescendo perto de árvores. Existe toda uma infraestrutura biológica invisível operando no subsolo.

O micélio pode ajudar quando falta água

Existe uma tecnologia subterrânea capaz de ajudar florestas contra secas e incêndios — e ela está viva
© Unsplash

Uma das características mais interessantes dessas associações aparece durante períodos de estresse hídrico.

As hifas dos fungos são muito mais finas do que as raízes e conseguem explorar pequenos espaços do solo. Dependendo da espécie de fungo, da planta e das condições ambientais, isso pode melhorar o acesso a água e nutrientes.

Pesquisas também relacionam fungos micorrízicos a mudanças na agregação e estrutura do solo, fatores importantes para infiltração e retenção de água.

Isso não significa que fungos possam impedir uma seca.

Uma estiagem prolongada provocada por mudanças nos padrões de precipitação e temperaturas elevadas continua sendo capaz de causar enormes danos a uma floresta, independentemente da presença de micélio.

A contribuição dos fungos é mais sutil: ecossistemas com solos saudáveis e relações subterrâneas preservadas podem apresentar maior capacidade de enfrentar determinados períodos de estresse.

Essa diferença é importante porque transforma uma promessa quase milagrosa em algo cientificamente muito mais interessante: resiliência.

E o que isso tem a ver com incêndios?

Existe uma tecnologia subterrânea capaz de ajudar florestas contra secas e incêndios — e ela está viva
© Pexels

Aqui também é preciso evitar simplificações.

Não existe uma rede de fungos capaz de funcionar como um sistema subterrâneo de combate a incêndios. O fogo florestal depende de inúmeros fatores, incluindo temperatura, umidade, vento, quantidade de material combustível e manejo da vegetação.

Mas fungos participam dos processos que determinam a saúde do solo e da vegetação.

Ao decompor matéria orgânica, reciclar nutrientes e estabelecer relações com plantas, eles integram mecanismos que influenciam a recuperação e o funcionamento dos ecossistemas antes e depois do fogo.

Estudos mostram ainda que incêndios podem alterar profundamente comunidades de fungos presentes no solo. Algumas espécies desaparecem temporariamente, enquanto outras são particularmente adaptadas a ambientes queimados e aparecem rapidamente depois das chamas.

O US Geological Survey mantém pesquisas sobre como incêndios modificam solos e ecossistemas, um campo que se tornou ainda mais relevante diante do aumento dos grandes eventos de fogo em diferentes regiões.

Portanto, dizer que o micélio simplesmente “evita incêndios” vai além do que as evidências permitem afirmar. O mais correto é entender os fungos como parte de ecossistemas que podem se tornar mais ou menos resistentes dependendo de inúmeros fatores.

Uma tecnologia que a natureza aperfeiçoou durante milhões de anos

O interesse pelo micélio, porém, já ultrapassou as florestas.

Empresas e laboratórios estão aprendendo a cultivar estruturas produzidas por fungos para criar materiais que podem substituir parcialmente plásticos, espumas e outros produtos derivados do petróleo.

Resíduos agrícolas podem servir de alimento para o fungo. Conforme cresce, o micélio envolve essas partículas e forma uma estrutura sólida que depois pode ser seca e moldada.

O resultado vem sendo estudado para embalagens, isolamento térmico, painéis e até alternativas a determinados materiais usados pela indústria da moda.

A vantagem está justamente no processo biológico: em vez de fabricar toda a estrutura por métodos industriais convencionais, permite-se que um organismo vivo faça parte do trabalho.

O desafio agora é não transformar fungos em solução milagrosa

A popularidade crescente do micélio também trouxe exageros.

Expressões como “internet das florestas” ajudam a explicar de maneira intuitiva algumas interações subterrâneas, mas podem transmitir a impressão de que árvores utilizam fungos como uma rede consciente de comunicação.

A realidade científica é mais complexa.

Existem evidências sólidas de associações micorrízicas, transferência de nutrientes e importantes interações entre fungos e plantas. Entretanto, a dimensão dessas transferências e suas consequências ecológicas variam muito conforme espécies e ambientes.

O mesmo cuidado vale para incêndios e secas.

Micélio não substitui políticas climáticas, manejo florestal, prevenção de incêndios ou gestão de recursos hídricos. Mas ignorá-lo seria igualmente equivocado.

Durante milhões de anos, fungos ajudaram a construir e transformar os ecossistemas terrestres. Agora estamos começando a compreender que parte da tecnologia necessária para criar ambientes mais resilientes talvez não precise ser inventada.

Ela já estava funcionando no solo o tempo inteiro.

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