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Ciência

Dificuldade com matemática: A ciência explica por que é tão difícil para alguns

Algumas pessoas travam diante de números enquanto outras avançam sem esforço. A ciência mostra que essa diferença vai muito além de dom ou falta de inteligência — e envolve fatores que poucos consideram.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quase todo mundo já viveu essa cena: um problema matemático aparentemente simples surge, e a mente simplesmente bloqueia. Para alguns, isso acontece desde a escola; para outros, nunca foi um obstáculo real. A pergunta surge naturalmente: será que algumas pessoas são “naturalmente ruins” em matemática? Pesquisas recentes indicam que a resposta não é simples — e passa por genética, emoções, experiências de vida e até pelo modo como aprendemos desde cedo.

O que a genética realmente explica — e o que não explica

Dificuldade com matemática: A ciência explica por que é tão difícil para alguns
© Pexels

Estudos científicos mostram que a genética tem, sim, um papel relevante no desempenho matemático, mas está longe de ser uma sentença definitiva. Pesquisas conduzidas com milhares de irmãos gêmeos ao longo da vida ajudam a ilustrar isso.

A geneticista e psicóloga Yulia Kovas, da Goldsmiths, University of London, acompanhou cerca de 10 mil pares de gêmeos idênticos e não idênticos desde o nascimento. Os resultados mostram que gêmeos idênticos tendem a apresentar níveis de habilidade matemática mais semelhantes entre si do que gêmeos não idênticos.

Isso sugere que fatores genéticos contribuem para cerca de 50% a 60% das diferenças individuais em matemática na adolescência e na vida adulta. Ainda assim, metade da explicação permanece fora dos genes. Em outras palavras: a biologia importa, mas não determina tudo.

O peso invisível do ambiente e das experiências

O ambiente exerce uma influência tão poderosa quanto subestimada. E não se trata apenas da qualidade da escola ou do apoio familiar direto. Experiências aparentemente aleatórias — uma aula inspiradora, um comentário negativo, um interesse despertado por acaso — podem alterar o percurso de aprendizagem.

Segundo Kovas, predisposições genéticas podem até influenciar os ambientes que escolhemos frequentar. Pessoas mais confiantes em matemática tendem a se expor mais a desafios numéricos, enquanto quem se sente inseguro passa a evitá-los, reforçando a diferença inicial.

A boa notícia é que habilidades matemáticas são maleáveis. A pesquisadora Iro Xenidou-Dervou, da University of Loughborough, destaca que pensamentos, crenças e emoções têm impacto direto sobre o desempenho. A forma como uma pessoa se percebe diante da matemática pode facilitar — ou bloquear — o aprendizado.

Ansiedade matemática: quando o medo vira obstáculo real

Um dos fatores mais estudados hoje é a chamada “ansiedade matemática”. Ela não surge do nada. Comentários como “você não leva jeito para números” ou comparações constantes com colegas podem criar um ciclo difícil de romper.

Esse ciclo funciona assim: o medo leva à evitação, a evitação gera menos prática, o desempenho piora e a ansiedade aumenta. O efeito é cognitivo e emocional ao mesmo tempo.

Xenidou-Dervou explica que a ansiedade consome a memória de trabalho — o espaço mental onde o raciocínio acontece. Pensamentos negativos ocupam esse espaço, deixando menos recursos disponíveis para resolver o problema.

Um estudo com crianças de nove e dez anos mostrou isso de forma clara: ao combinar tarefas de cálculo mental com exercícios que exigiam retenção de palavras, as crianças com alta ansiedade matemática tiveram queda acentuada no desempenho. Não era falta de capacidade, mas sobrecarga mental.

O senso inato de números — e quando ele falha

Pesquisas em neuropsicologia indicam que seres humanos nascem com um senso básico de quantidade. Bebês e crianças pequenas, mesmo sem ensino formal, conseguem distinguir números maiores de menores.

O neuropsicólogo Brian Butterworth, da University College London, explica que, em algumas pessoas, esse mecanismo inato não funciona de forma eficiente. É o caso da discalculia, uma dificuldade específica de aprendizagem relacionada a números e quantidades.

A discalculia afeta cerca de 5% da população e pode tornar operações simples extremamente difíceis. Jogos e intervenções têm mostrado resultados promissores, mas os especialistas ainda investigam os efeitos de longo prazo, especialmente quando o apoio começa cedo.

Por que a matemática é diferente de outras matérias

A matemática exige uma construção progressiva. A doutora Xenidou-Dervou compara o aprendizado a um muro feito de tijolos: sem uma base sólida, os níveis seguintes ficam comprometidos.

Ao contrário de disciplinas como história ou literatura, onde é possível compensar lacunas pontuais, a matemática depende fortemente de etapas anteriores. Um conceito mal compreendido no início pode gerar dificuldades acumuladas anos depois.

Isso ajuda a explicar por que frustrações precoces têm impacto tão duradouro — e por que intervenções tardias costumam ser mais difíceis.

O que os países com bom desempenho ensinam

Avaliações internacionais como o Programme for International Student Assessment revelam padrões interessantes. Países do Leste Asiático e a Finlândia costumam aparecer no topo dos rankings em matemática.

Na China, segundo a educadora Zhenzhen Miao, o foco está nos fundamentos e no pensamento matemático básico, além de forte valorização dos professores. Já na Finlândia, como explica o sociólogo Pekka Räsänen, o sistema prioriza garantir habilidades essenciais para todos, com docentes altamente qualificados e socialmente respeitados.

Ainda assim, mesmo nesses países, existem variações individuais — um lembrete de que não há respostas simples para uma questão tão complexa.

Então, afinal, algumas pessoas são ruins em matemática?

A ciência sugere que não se trata de ser “ruim” ou “bom”, mas de uma combinação delicada entre predisposição genética, experiências emocionais, ambiente educacional e crenças pessoais. A matemática não é um dom fixo — é uma habilidade construída, que pode florescer ou se retrair dependendo do caminho percorrido.

Entender isso muda o foco da pergunta. Em vez de “por que eu sou ruim em matemática?”, talvez a questão mais produtiva seja: “o que, ao longo da minha história, tornou a matemática difícil para mim — e o que ainda pode ser transformado?”

[Fonte: Correio Braziliense]

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