Pular para o conteúdo
Ciência

Do Viking ao Perseverance: o lugar do Sistema Solar onde a NASA mais aposta para encontrar vida extraterrestre — e por que a resposta ainda é incerta

Marte voltou ao centro da busca por vida fora da Terra após o rover Perseverance detectar possíveis bioassinaturas em 2025. Mas a história dessa investigação começou há quase 50 anos e é marcada por resultados ambíguos, meteoritos controversos e promessas que ainda exigem cautela científica.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A pergunta “estamos sozinhos no Universo?” acompanha a humanidade há séculos. Nas últimas décadas, porém, ela deixou de ser apenas filosófica e passou a ser científica. Com robôs em Marte e telescópios analisando atmosferas de exoplanetas, a NASA e outras agências espaciais buscam indícios químicos que possam apontar para vida além da Terra. E, até agora, o principal palco dessa investigação continua sendo o planeta vermelho.

O novo capítulo aberto pelo Perseverance

Camadas de argila descobertas em Marte estão dando pistas intrigantes sobre o que pode ter existido por lá há bilhões de anos
© https://x.com/CoinOrbitX

Em setembro de 2025, a NASA anunciou que o rover Perseverance havia identificado possíveis bioassinaturas em Marte. O veículo explora há anos o leito seco de um antigo lago na cratera Jezero, ambiente considerado promissor por ter abrigado água líquida no passado.

O que chamou a atenção dos cientistas foram evidências de antigas reações de oxirredução (redox). Esses processos químicos podem estar associados tanto a microrganismos quanto a fenômenos puramente geológicos. Ou seja: são sugestivos, mas não conclusivos.

O anúncio reacendeu o debate sobre bioassinaturas — sinais químicos, estruturais ou isotópicos que podem indicar atividade biológica passada ou presente. Mas definir o que realmente constitui uma bioassinatura é mais complicado do que parece.

O que é, afinal, uma bioassinatura?

A linha que separa processos biológicos de processos geológicos nem sempre é clara. Compostos complexos, cristais e estruturas microscópicas podem surgir sem qualquer participação da vida.

O astrobiólogo Sean McMahon, da Universidade de Edimburgo, resume o dilema: a química biológica deriva da química não biológica. Isso significa que, em muitos casos, a própria natureza pode produzir estruturas que imitam sinais de vida.

A pesquisadora francesa Frances Westall, especialista em exobiologia, levou quase 20 anos para confirmar a origem biológica de microrganismos fossilizados com 3,45 bilhões de anos na Austrália. Segundo ela, formas de vida simples, como quimiolitotróficos — que obtêm energia de reações químicas com minerais — podem ser comuns no Universo, mas extremamente difíceis de detectar.

Em outras palavras: até mesmo na Terra é desafiador diferenciar vida de processos abióticos. Em Marte, o desafio é ainda maior.

O experimento Viking que dividiu a comunidade científica

A busca moderna por vida em Marte começou oficialmente em 1976, quando a NASA pousou as sondas do programa Viking na superfície marciana.

Entre os experimentos levados pelos módulos estava o chamado “experimento de liberação rotulada”. A ideia era simples: misturar solo marciano com nutrientes e água e observar se haveria liberação de gases que indicassem metabolismo microbiano.

O resultado inicial foi surpreendente. O teste detectou gases compatíveis com atividade biológica. O problema é que os resultados não se repetiram de forma consistente, e análises posteriores mostraram que compostos químicos reativos presentes no solo marciano poderiam explicar os dados sem necessidade de vida.

Até hoje, o caso Viking é considerado inconclusivo. Para muitos cientistas, trata-se de um exemplo clássico de experimento suscetível tanto a falsos positivos quanto a falsos negativos.

O meteorito que reacendeu o debate

Em 1996, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, anunciou o possível achado de vida em Marte após a análise de um meteorito marciano encontrado na Antártida, o Allan Hills 84001.

Estruturas microscópicas no interior da rocha foram inicialmente interpretadas como possíveis fósseis de microrganismos marcianos. Com o tempo, porém, a maioria da comunidade científica passou a considerar que os padrões poderiam ser explicados por processos geoquímicos não biológicos.

Apesar disso, o episódio impulsionou o campo da astrobiologia e ampliou investimentos na busca por vida fora da Terra.

Além de Marte: bioassinaturas nas atmosferas

A investigação não se limita à superfície marciana. Telescópios espaciais analisam atmosferas de outros planetas em busca de gases que possam indicar atividade biológica.

Em 2021, um estudo sugeriu a presença de fosfina na atmosfera de Vênus, composto que pode ter origem biológica. A descoberta gerou controvérsia e novas análises apontaram possíveis explicações não biológicas.

Mais recentemente, em 2025, cientistas relataram possíveis sinais químicos intrigantes na atmosfera do exoplaneta K2-18b, a cerca de 124 anos-luz da Terra. Novamente, o debate foi imediato.

Segundo McMahon, a descoberta de vida provavelmente começará com uma observação que não conseguimos explicar. O verdadeiro trabalho científico, então, será testar todas as alternativas possíveis.

O próximo passo: trazer Marte para a Terra

O plano da NASA é ambicioso: enviar uma missão futura para coletar as amostras armazenadas pelo Perseverance e trazê-las à Terra. Aqui, com instrumentos muito mais sofisticados do que os disponíveis em um rover, será possível realizar análises detalhadas.

Esse projeto, porém, enfrenta incertezas orçamentárias e cortes propostos na agência espacial.

Seja qual for o desfecho, a busca por vida extraterrestre exige paciência. Confirmar uma bioassinatura inequívoca pode levar anos — talvez décadas.

Mas, quando esse dia chegar, a humanidade terá finalmente respondido uma das perguntas mais profundas de sua história. Até lá, a investigação continua, cautelosa e fascinante, como procurar uma agulha em um palheiro cósmico.

 

[ Fonte: National Geographic ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados