A pergunta “estamos sozinhos no Universo?” acompanha a humanidade há séculos. Nas últimas décadas, porém, ela deixou de ser apenas filosófica e passou a ser científica. Com robôs em Marte e telescópios analisando atmosferas de exoplanetas, a NASA e outras agências espaciais buscam indícios químicos que possam apontar para vida além da Terra. E, até agora, o principal palco dessa investigação continua sendo o planeta vermelho.
O novo capítulo aberto pelo Perseverance

Em setembro de 2025, a NASA anunciou que o rover Perseverance havia identificado possíveis bioassinaturas em Marte. O veículo explora há anos o leito seco de um antigo lago na cratera Jezero, ambiente considerado promissor por ter abrigado água líquida no passado.
O que chamou a atenção dos cientistas foram evidências de antigas reações de oxirredução (redox). Esses processos químicos podem estar associados tanto a microrganismos quanto a fenômenos puramente geológicos. Ou seja: são sugestivos, mas não conclusivos.
O anúncio reacendeu o debate sobre bioassinaturas — sinais químicos, estruturais ou isotópicos que podem indicar atividade biológica passada ou presente. Mas definir o que realmente constitui uma bioassinatura é mais complicado do que parece.
O que é, afinal, uma bioassinatura?
A linha que separa processos biológicos de processos geológicos nem sempre é clara. Compostos complexos, cristais e estruturas microscópicas podem surgir sem qualquer participação da vida.
O astrobiólogo Sean McMahon, da Universidade de Edimburgo, resume o dilema: a química biológica deriva da química não biológica. Isso significa que, em muitos casos, a própria natureza pode produzir estruturas que imitam sinais de vida.
A pesquisadora francesa Frances Westall, especialista em exobiologia, levou quase 20 anos para confirmar a origem biológica de microrganismos fossilizados com 3,45 bilhões de anos na Austrália. Segundo ela, formas de vida simples, como quimiolitotróficos — que obtêm energia de reações químicas com minerais — podem ser comuns no Universo, mas extremamente difíceis de detectar.
Em outras palavras: até mesmo na Terra é desafiador diferenciar vida de processos abióticos. Em Marte, o desafio é ainda maior.
O experimento Viking que dividiu a comunidade científica
A busca moderna por vida em Marte começou oficialmente em 1976, quando a NASA pousou as sondas do programa Viking na superfície marciana.
Entre os experimentos levados pelos módulos estava o chamado “experimento de liberação rotulada”. A ideia era simples: misturar solo marciano com nutrientes e água e observar se haveria liberação de gases que indicassem metabolismo microbiano.
O resultado inicial foi surpreendente. O teste detectou gases compatíveis com atividade biológica. O problema é que os resultados não se repetiram de forma consistente, e análises posteriores mostraram que compostos químicos reativos presentes no solo marciano poderiam explicar os dados sem necessidade de vida.
Até hoje, o caso Viking é considerado inconclusivo. Para muitos cientistas, trata-se de um exemplo clássico de experimento suscetível tanto a falsos positivos quanto a falsos negativos.
O meteorito que reacendeu o debate
Em 1996, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, anunciou o possível achado de vida em Marte após a análise de um meteorito marciano encontrado na Antártida, o Allan Hills 84001.
Estruturas microscópicas no interior da rocha foram inicialmente interpretadas como possíveis fósseis de microrganismos marcianos. Com o tempo, porém, a maioria da comunidade científica passou a considerar que os padrões poderiam ser explicados por processos geoquímicos não biológicos.
Apesar disso, o episódio impulsionou o campo da astrobiologia e ampliou investimentos na busca por vida fora da Terra.
Além de Marte: bioassinaturas nas atmosferas
A investigação não se limita à superfície marciana. Telescópios espaciais analisam atmosferas de outros planetas em busca de gases que possam indicar atividade biológica.
Em 2021, um estudo sugeriu a presença de fosfina na atmosfera de Vênus, composto que pode ter origem biológica. A descoberta gerou controvérsia e novas análises apontaram possíveis explicações não biológicas.
Mais recentemente, em 2025, cientistas relataram possíveis sinais químicos intrigantes na atmosfera do exoplaneta K2-18b, a cerca de 124 anos-luz da Terra. Novamente, o debate foi imediato.
Segundo McMahon, a descoberta de vida provavelmente começará com uma observação que não conseguimos explicar. O verdadeiro trabalho científico, então, será testar todas as alternativas possíveis.
O próximo passo: trazer Marte para a Terra
O plano da NASA é ambicioso: enviar uma missão futura para coletar as amostras armazenadas pelo Perseverance e trazê-las à Terra. Aqui, com instrumentos muito mais sofisticados do que os disponíveis em um rover, será possível realizar análises detalhadas.
Esse projeto, porém, enfrenta incertezas orçamentárias e cortes propostos na agência espacial.
Seja qual for o desfecho, a busca por vida extraterrestre exige paciência. Confirmar uma bioassinatura inequívoca pode levar anos — talvez décadas.
Mas, quando esse dia chegar, a humanidade terá finalmente respondido uma das perguntas mais profundas de sua história. Até lá, a investigação continua, cautelosa e fascinante, como procurar uma agulha em um palheiro cósmico.
[ Fonte: National Geographic ]