A doação de esperma nunca foi tão comum. Ela viabiliza a maternidade para mulheres solteiras, casais homoafetivos e pessoas com infertilidade masculina. O que poucos imaginam é a escala que esse mercado atingiu — especialmente na Europa, onde o setor deve ultrapassar £ 2 bilhões até 2033. Com isso, surgem situações extremas: doadores que se tornam pais biológicos de centenas de crianças, muitas vezes sem sequer saber disso.
Um caso que acendeu o alerta na Europa

A discussão ganhou força após uma investigação revelar que o esperma de um único doador, portador de uma mutação genética associada a câncer, foi enviado para 14 países e resultou em pelo menos 197 filhos. O caso escancarou a falta de coordenação internacional e mostrou como o mesmo material genético pode atravessar fronteiras sem um controle centralizado.
Esse episódio trouxe à tona uma pergunta incômoda: quantos filhos são “demais” para um único doador?
Poucos homens viram doadores — e isso pesa
Apesar da impressão de abundância, a realidade é o oposto. Menos de 5% dos homens que se candidatam a doar esperma são aprovados. Os critérios são rigorosos: contagem de espermatozoides, motilidade, morfologia, capacidade de sobreviver ao congelamento e ausência de infecções ou mutações genéticas conhecidas.
Mesmo homens férteis, com filhos, podem ser descartados. No Reino Unido, por exemplo, ainda há limite de idade e testes genéticos obrigatórios. O resultado é uma escassez crônica. Metade do esperma usado no país é importado.
Como cada ejaculação contém dezenas de milhões de espermatozoides, um pequeno grupo de doadores pode gerar um número enorme de crianças ao longo de meses de doação contínua. Bancos e clínicas acabam maximizando o uso dos poucos doadores aprovados para atender à demanda.
Quando alguns doadores viram “preferidos”
Além da escassez, existe outro fator: escolha. O esperma não é distribuído aleatoriamente. Bancos permitem que receptoras vejam fotos, ouçam a voz, conheçam profissão, altura, hobbies e histórico educacional do doador.
Especialistas comparam o processo a aplicativos de namoro. Alguns perfis são muito mais procurados do que outros. Doadores com certas características físicas ou culturais acabam sendo escolhidos repetidamente, ampliando ainda mais o número de filhos biológicos.
O domínio dinamarquês e o “esperma viking”
A Dinamarca se tornou uma potência global no setor. O país abriga alguns dos maiores bancos de esperma do mundo e exporta material genético para dezenas de nações. Segundo empresários do setor, isso se deve tanto a fatores culturais — menos tabus sobre doação — quanto à genética.
Há uma demanda global por doadores com determinadas características físicas, como olhos claros e cabelos loiros. Como esses traços são recessivos, muitas famílias acreditam que as características da mãe prevalecerão, tornando a escolha “segura” do ponto de vista estético.
Hoje, mulheres solteiras, altamente escolarizadas e na faixa dos 30 anos representam cerca de 60% da clientela desses bancos.
Fronteiras abertas, regras fragmentadas
Cada país tem suas próprias regras sobre quantas vezes o esperma de um doador pode ser usado. Algumas legislações limitam o número de filhos, outras o número de famílias. O problema é que essas regras não se comunicam entre si.
Nada impede que o mesmo doador gere filhos legalmente na Itália, Espanha, Bélgica e Holanda, desde que respeite os limites locais. Isso cria o cenário perfeito para números extremos.
Especialistas alertam que muitos doadores e receptoras sequer sabem que o esperma pode ser usado em vários países ao mesmo tempo.
O impacto nas crianças e o dilema ético
As consequências não são apenas estatísticas. Crianças concebidas por doação podem descobrir, anos depois, que têm centenas de meio-irmãos espalhados pelo mundo. Para algumas, isso é irrelevante. Para outras, pode ser profundamente angustiante.
Testes de DNA acessíveis e redes sociais tornam essas descobertas cada vez mais comuns. No Reino Unido, por exemplo, o anonimato dos doadores já não existe.
Diante disso, autoridades europeias discutem a criação de um registro internacional de doadores de esperma. A ideia é monitorar o uso transfronteiriço e limitar excessos. Críticos, porém, alertam para desafios éticos, legais e de privacidade.
O consenso ainda está longe. Mas uma coisa é clara: o mercado de fertilidade deixou de ser apenas um meio de formar famílias. Hoje, ele levanta questões profundas sobre identidade, consentimento e os limites de um negócio que cresce mais rápido do que a regulamentação consegue acompanhar.
[Fonte: Correio Braziliense]