Bebidas energéticas são amplamente vendidas como impulsos rápidos de energia, foco e desempenho. Mas, por trás do marketing vibrante, cresce um corpo de evidências de que seu consumo excessivo pode esconder riscos graves — e pouco conhecidos — para o coração e o cérebro. Um novo estudo do BMJ Case Reports relata a história de um homem aparentemente saudável que enfrentou um derrame possivelmente desencadeado pela superdosagem de cafeína. O caso serve como alerta.
O caso que chamou atenção: um derrame sem causa aparente
O paciente, um homem de 50 anos do Reino Unido, chegou ao hospital após apresentar dormência repentina no lado esquerdo do corpo e uma sensação geral de desequilíbrio. Exames iniciais revelaram um quadro alarmante: sua pressão arterial estava em 254/150, um nível considerado crise hipertensiva severa. Poucas horas depois, os médicos confirmaram que ele havia sofrido um derrame leve.
Apesar da gravidade, o homem não tinha os fatores de risco típicos: não fumava, não bebia álcool e mantinha boa condição física. Após três dias de internação, recebeu alta com medicamentos para controlar a pressão e prevenir novos eventos. Embora tenha apresentado boa recuperação funcional, persistiram episódios de pressão elevada, inclusive com nova internação.
Somente após uma análise mais profunda de seu estilo de vida surgiu o ponto-chave: ele consumia oito energéticos por dia, cada um com cerca de 160 mg de cafeína. Isso significa que ingería aproximadamente 1,3 grama de cafeína diariamente, mais do triplo do limite recomendado de 400 mg para adultos.
Diante da ausência de outras causas identificáveis, os médicos concluíram que o consumo exagerado de energéticos foi o principal desencadeador do aumento extremo da pressão arterial — e, por consequência, do derrame.
O impacto da cafeína: o que a ciência já sabe
Embora comercializadas de maneira inocente, bebidas energéticas carregam uma combinação de substâncias que podem atuar sinergicamente no organismo. A cafeína, em doses elevadas, pode:
- aumentar de forma crônica a pressão arterial,
- causar vasoconstrição súbita nos vasos cerebrais,
- desencadear arritmias cardíacas,
- sobrecarregar o sistema cardiovascular.
Outros ingredientes típicos, como taurina, ginseng e guaraná, podem potencializar esses efeitos. O guaraná, em particular, pode conter quantidades adicionais de cafeína que nem sempre são claramente rotuladas. Para muitas pessoas, isso significa ingerir mais estimulantes do que imaginam.
Casos de doenças cardíacas relacionadas a energéticos não são inéditos. Nos EUA, entre 2022 e 2023, duas mortes foram associadas às bebidas “Charged Lemonade”, altamente cafeinadas, da Panera Bread. O processo resultou na retirada do produto em 2024 e culminou em acordos judiciais no ano seguinte.
A recuperação — e um alerta que permanece
Ao descobrir o potencial impacto dos energéticos, o paciente decidiu abandonar completamente o hábito. Em apenas uma semana, sua pressão arterial voltou ao normal — e permaneceu estável mesmo após a retirada gradual dos medicamentos. O episódio reforçou o papel direto das bebidas no seu quadro.
Oito anos depois, ele não teve novos derrames e mantém a saúde cardiovascular equilibrada. Ainda assim, relata uma dormência residual no lado esquerdo do corpo, lembrança permanente do risco que desconhecia.
“Eu obviamente não sabia o perigo que as bebidas energéticas estavam causando”, escreveu ele no relato que acompanha o estudo.
Deveríamos regular melhor essas bebidas?
Para os autores do relatório, ainda não há evidências suficientes para afirmar que autoridades sanitárias devem intervir diretamente. Mas eles defendem maior divulgação do tema e mais pesquisas, especialmente porque essas bebidas são fortemente direcionadas a adolescentes e adultos jovens — grupos que dificilmente monitoram o consumo de cafeína.
Embora não se trate de demonizar os energéticos, os médicos reforçam que o público tem o direito de saber os riscos envolvidos, principalmente quando o marketing sugere produtos inofensivos e voltados ao desempenho.
Como observa o jornalista do Gizmodo, que também admite gostar de um bom café, talvez seja hora de todos nós acompanharmos com mais atenção nossa dose diária de cafeína.