Brasília é conhecida por sua arquitetura moderna e por uma população relativamente jovem. Ainda assim, um grupo discreto cresce longe dos holofotes: homens e mulheres que se aproximam — ou já ultrapassaram — os 100 anos. Eles chegam aos consultórios com histórias distintas, corpos marcados pelo tempo e algo em comum que chama atenção dos especialistas. A longevidade, nesses casos, não parece resultado de sorte, mas de escolhas acumuladas ao longo da vida.
O que se repete entre quem vive mais

No dia a dia do consultório geriátrico, atender pessoas com 90, 95 ou quase 100 anos deixou de ser exceção. Embora cada paciente carregue uma trajetória única, padrões começam a surgir com clareza. Motivação, senso de propósito, atividade constante, autoestima preservada, hábito de leitura, estímulo cognitivo e vida social ativa aparecem com frequência entre os mais longevos.
Esses elementos não surgem de forma espontânea na velhice. Eles são construídos ao longo do tempo, muitas vezes desde a infância. Pessoas que chegam a idades avançadas com autonomia tendem a manter interesses, compromissos e vínculos. O isolamento, ao contrário, aparece como um fator que encurta o caminho.
A ciência por trás da longevidade extrema
Pesquisas recentes ajudam a explicar por que alguns indivíduos atravessam o século com mais saúde do que outros. Estudos com centenários brasileiros identificaram três pilares principais associados à longevidade acentuada: genética, sistema imunológico e metabolismo.
Os dois primeiros estão, em grande parte, fora do controle individual. Algumas pessoas parecem acumular menos proteínas associadas a doenças neurodegenerativas ao longo da vida. Outras apresentam mecanismos de proteção no sistema nervoso central que reduzem inflamações crônicas. Esses fatores ainda estão sendo investigados, mas apontam para uma vantagem biológica presente desde o nascimento.
O terceiro pilar, no entanto, é diferente — e decisivo.
A poupança invisível chamada metabolismo
O metabolismo funciona como uma espécie de “capital de saúde”. Ele reflete tudo o que a pessoa fez — ou deixou de fazer — ao longo da vida. Alimentação, movimento, sono, estresse e relações sociais moldam esse sistema de forma contínua, criando reservas que serão usadas décadas depois.
É por isso que dois indivíduos da mesma idade cronológica podem envelhecer de maneiras completamente distintas. Quem investiu nesse capital chega à velhice com mais força muscular, melhor cognição e maior capacidade funcional. Não se trata de buscar fórmulas milagrosas, mas de acumular pequenas escolhas consistentes ao longo do tempo.
Sono, músculo e movimento: os pilares práticos
Entre os fatores modificáveis, a atividade física ocupa posição central. O músculo é uma das maiores reservas contra as adversidades do envelhecimento. Ele protege o corpo, sustenta a autonomia, melhora a saúde mental e reduz o risco de quedas e hospitalizações.
A alimentação aparece logo em seguida, com atenção especial à redução de ultraprocessados, associados a maior risco de doenças neurodegenerativas. O sono, muitas vezes negligenciado, é outro pilar crítico. Dormir bem permite ao cérebro realizar uma espécie de “limpeza” das toxinas acumuladas durante o dia — um processo essencial para a saúde cognitiva.
Somam-se a isso a socialização e o controle do estresse. Manter vínculos, participar de grupos, viajar e cultivar interesses ajuda a preservar o sentido de pertencimento e propósito, elementos recorrentes entre os longevos.
Nunca é tarde para começar
Existe a ideia de que cuidar da saúde só faz diferença quando começa cedo. Embora o preparo ao longo da vida seja importante, mudanças tardias ainda geram impacto real. Há casos de pessoas que iniciaram atividades físicas após os 60 anos e hoje apresentam desempenho funcional acima da média, inclusive em idades avançadas.
O maior obstáculo costuma ser o preconceito, especialmente em relação à musculação. Exercícios resistidos, feitos com orientação adequada, são seguros e eficazes mesmo para idosos. Não precisam, necessariamente, ocorrer em academias tradicionais — podem ser adaptados a diferentes contextos.
A recomendação geral envolve cerca de 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, além de exercícios de força algumas vezes por semana, sempre com avaliação médica prévia.
Envelhecer bem também é um desafio coletivo
A longevidade crescente traz um desafio que vai além do indivíduo. Cidades, sistemas de saúde e políticas públicas ainda não estão preparados para uma população que viverá mais — e que, muitas vezes, será responsável por cuidar de outros idosos.
Há situações em que pessoas com mais de 90 anos assumem o papel de cuidadoras principais de familiares mais jovens com doenças neurodegenerativas. Esse cenário exige adaptações urbanas, apoio institucional e um novo olhar sobre o envelhecimento como etapa ativa da vida.
O número de centenários no país tende a dobrar nos próximos anos. A pergunta que se impõe não é apenas quantos chegarão lá, mas em que condições — e o quanto estamos dispostos a nos preparar, individual e coletivamente, para essa realidade.
[Fonte: Correio Braziliense]