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Ciência

Espelhos espaciais: o plano polêmico que quer transformar a noite em dia

Uma startup da Califórnia quer lançar milhares de satélites espelhados para refletir a luz solar sobre a Terra depois do pôr do sol. A promessa é gerar energia e iluminar cidades — mas astrônomos e ambientalistas alertam para riscos inéditos no céu e na vida selvagem.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Reflect Orbital, uma jovem empresa americana, quer preencher a órbita terrestre com espelhos capazes de devolver à Terra a luz do Sol durante a noite. O projeto promete ampliar o uso da energia solar e iluminar áreas urbanas, mas especialistas alertam que a iniciativa pode alterar o ciclo natural do planeta e prejudicar a astronomia global.

A ideia de “iluminar” o planeta a partir do espaço

Imagine olhar para o céu noturno e ver não apenas estrelas, mas pontos móveis refletindo luz solar. Essa é a visão futurista — e controversa — da Reflect Orbital, uma startup californiana que planeja colocar em órbita uma constelação de satélites espelhados capazes de redirecionar os raios do Sol para a Terra depois do pôr do sol.

Segundo a empresa, o sistema poderia permitir que fazendas solares continuassem a gerar eletricidade à noite, além de servir como fonte de iluminação em emergências e até substituir parte da iluminação pública. A proposta, porém, tem dividido a comunidade científica entre o entusiasmo tecnológico e o alarme ambiental.

O projeto EARENDIL-1: o primeiro “espelho” orbital

A Reflect Orbital já pediu autorização à Comissão Federal de Comunicações (FCC) para lançar seu primeiro protótipo, o EARENDIL-1, um satélite experimental com um espelho quadrado de 18 metros de lado. O lançamento está previsto para abril de 2026.

Esse seria apenas o início de uma constelação que, segundo a empresa, pode chegar a 4.000 satélites até 2030 — com tamanhos variando entre 10×10 e 54×54 metros. Todos orbitariam a cerca de 625 km de altitude, acompanhando a fronteira entre o dia e a noite, de modo a permanecer sempre expostos ao Sol.

A empresa já recebeu US$ 1,25 milhão do programa de inovação da Força Aérea dos EUA, o SBIR. Para seus fundadores, o projeto marca o começo de uma “nova era de aproveitamento solar contínuo”.

O desafio técnico: 3.000 satélites para fazer o trabalho de um Sol

Satelites
@ Pixabay

Astrônomos não compartilham do mesmo otimismo. Michael Brown, professor da Universidade Monash, explica que “para reproduzir o brilho do Sol ao meio-dia, o espelho teria que parecer do mesmo tamanho que o Sol no céu” — algo impossível com as dimensões propostas.

Segundo cálculos dele e de Matthew Kenworthy, da Universidade de Leiden, um espelho de 54 metros geraria uma luz 15.000 vezes mais fraca que a solar. Para atingir apenas 20% da intensidade da luz do Sol, seriam necessários 3.000 satélites focando simultaneamente na mesma região.

E há outro obstáculo: orbitando a 7,5 km por segundo, cada satélite iluminaria uma área específica por apenas 3 minutos e meio. O próprio fundador da empresa, Ben Nowack, chegou a admitir que poderiam ser necessários até 250 mil satélites — um número superior a todos os satélites e detritos espaciais hoje catalogados.

Uma ideia antiga que nunca deu certo

Projetos de “espelhos espaciais” não são novidade. Já nos anos 1920, cientistas russos sonhavam em iluminar cidades a partir do espaço. Em 1993, a Rússia lançou o Znamya 2, um espelho de 25 metros que chegou a refletir um ponto luminoso de cinco quilômetros de diâmetro antes de se desintegrar na atmosfera.

Desde então, propostas semelhantes surgiram nos Estados Unidos e na Europa, mas nenhuma prosperou — principalmente por limitações técnicas e custos exorbitantes.

Luz artificial, céu perdido

Além da dificuldade técnica, os críticos alertam para efeitos ambientais e astronômicos sérios. A luz refletida pode desorientar aves migratórias, alterar ciclos biológicos e transformar o céu noturno em um espetáculo de brilho artificial.

Astrônomos como Aaron Boley (Universidade da Colúmbia Britânica) e John Barentine (Dark Sky Consulting) alertam que esses espelhos poderiam gerar feixes até quatro vezes mais brilhantes que a Lua cheia, visíveis a centenas de quilômetros — interferindo em observações astronômicas e até representando riscos à visão.

A luz refletida também constitui poluição luminosa, um problema que já preocupa cientistas devido às constelações da Starlink. Segundo especialistas, uma frota como a proposta pela Reflect Orbital seria “devastadora para a astronomia” e alteraria o equilíbrio entre dia e noite que guia a vida há bilhões de anos.

Um futuro incerto sob luz artificial

A Reflect Orbital promete operar com transparência, compartilhando a localização de seus satélites e evitando áreas de observatórios. Ainda assim, muitos duvidam de sua viabilidade — e de sua ética.

O projeto EARENDIL-1 pode de fato sair do papel em 2026, mas transformar a noite em um “dia artificial” exigirá uma revolução técnica, econômica e regulatória. Até lá, o debate continua: será essa uma nova fronteira energética ou o começo do fim de um céu realmente escuro?

 

[ Fonte: DW ]

 

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