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Ciência

Esquizofrenia pode ter raízes em genes pouco comuns, diz estudo

Um estudo internacional identificou oito genes raros que aumentam o risco de esquizofrenia, oferecendo pistas inéditas sobre a neurobiologia desse transtorno. A descoberta, publicada na Nature Communications, pode abrir caminho para tratamentos inovadores e até beneficiar pacientes com outros distúrbios do desenvolvimento neurológico.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pesquisadores analisaram o genoma de quase 130 mil pessoas e encontraram oito genes pouco comuns ligados ao risco de esquizofrenia. Entre eles, alguns já associados a funções essenciais da comunicação cerebral. A revelação reforça que a doença tem raízes biológicas complexas e aponta para novos horizontes em terapias personalizadas.

A esquizofrenia, que afeta milhões em todo o mundo, sempre foi considerada um dos maiores enigmas da saúde mental. Embora muitos estudos tenham explorado fatores ambientais e sociais, as explicações genéticas permaneciam difusas. Agora, cientistas da Universidade de Cardiff e de outros centros internacionais avançaram significativamente ao identificar genes raros diretamente associados à doença. Esse marco científico aprofunda o mapa da esquizofrenia e sugere novas abordagens terapêuticas.

Oito genes que fazem a diferença

A pesquisa envolveu quase 29 mil pacientes com esquizofrenia, mais de 100 mil controles e famílias com histórico do transtorno. Entre os genes identificados, STAG1 e ZNF136 mostraram a associação mais forte. Outros seis, incluindo SLC6A1, KLC1 e PCLO, apresentaram ligações moderadas, mas igualmente relevantes.

O gene SLC6A1, por exemplo, interfere no transportador do neurotransmissor GABA, essencial para a comunicação entre neurônios. Alterações nesse processo comprometem a sinalização cerebral. Já KLC1 está ligado ao transporte intracelular e à diferenciação das células nervosas. O envolvimento de STAG1, por sua vez, sugere que a organização da cromatina — estrutura que compacta o DNA — pode ter papel central no surgimento da esquizofrenia.

Conexões além da esquizofrenia

O estudo também revelou que várias dessas variantes genéticas aparecem em pacientes com autismo, epilepsia e atrasos de desenvolvimento. Isso reforça a hipótese de que distúrbios diferentes podem compartilhar mecanismos biológicos semelhantes.

Segundo a pesquisadora Sophie Chick, da Universidade de Cardiff, as descobertas indicam que “a esquizofrenia pode estar relacionada a mudanças tanto na organização do DNA quanto na comunicação neuronal mediada pelo GABA”. Esse achado amplia a perspectiva de criar terapias que ultrapassem um único diagnóstico e alcancem vários transtornos psiquiátricos e neurológicos.

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© Anna Shvets – Pexels

Um novo horizonte para os tratamentos

Elliott Rees, autor principal do trabalho, reconhece os desafios de isolar genes específicos entre milhares de variantes raras. Ainda assim, ele destaca que o estudo amplia de forma significativa o mapa genético da esquizofrenia, oferecendo um ponto de partida para entender os mecanismos patológicos com mais clareza.

O artigo, publicado na Nature Communications, mostra como a combinação de sequenciamento avançado e análise estatística de larga escala pode orientar o desenvolvimento de novos medicamentos direcionados a funções neuronais específicas. Essa abordagem se aproxima da ideia de uma medicina de precisão aplicada à psiquiatria.

Limitações e próximos passos

Apesar dos avanços, os autores alertam para limitações: falta de dados clínicos detalhados e baixa representação de populações diversas. Isso significa que, para que os resultados sejam aplicáveis globalmente, será essencial ampliar a diversidade dos participantes em futuras pesquisas genéticas.

Ainda que a aplicação clínica demore, a identificação desses genes representa um passo fundamental para compreender a biologia da esquizofrenia. Mais do que isso, traz esperança de que, no futuro, pacientes possam contar com tratamentos mais eficazes, personalizados e menos generalistas do que os atuais.

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