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Ciência

Este pequeno peixe só foi encontrado em três poças da Amazônia — seu habitat já está sob pressão

Uma espécie desconhecida chamou atenção pelas cores, mas sua descoberta trouxe uma preocupação imediata. Todo o habitat conhecido cabe em uma área surpreendentemente pequena e já bastante pressionada.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Descobrir uma nova espécie normalmente significa ampliar aquilo que conhecemos sobre a biodiversidade de uma região. Na Amazônia brasileira, porém, um pequeno peixe recém-descrito chegou à ciência acompanhado de um alerta. Ele mede menos de três centímetros, foi encontrado em pouquíssimos pontos e depende de ambientes extremamente frágeis. O mais preocupante é que mineração, desmatamento, poluição e expansão urbana já alcançaram justamente o minúsculo território onde ele consegue sobreviver.

Um peixe de menos de três centímetros escondido no extremo norte do Brasil

A nova espécie recebeu o nome de Laimosemion laranja e foi descrita na revista científica Zoosystematics and Evolution.

O estudo foi liderado por Yuri Abrantes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com participação de pesquisadores do Instituto Peixe das Nuvens, da Universidade Federal do Pará e da University of West Florida, nos Estados Unidos.

O animal pertence à família Rivulidae, grupo que reúne pequenos peixes conhecidos como killis e que chama atenção também no mundo do aquarismo pela diversidade de suas cores.

No caso da nova espécie, são justamente as cores que se destacam.

Os machos não chegam a três centímetros de comprimento e apresentam corpo cinza-claro. Na região anterior aparecem fileiras de manchas alaranjadas, enquanto, perto da cauda, surgem barras da mesma cor formando desenhos semelhantes à letra V.

O nome escolhido pelos pesquisadores brinca com essa característica.

Em português, “laranja” identifica tanto a cor quanto a fruta. Mas existe ainda uma referência geográfica: Laranjal do Jari, município relacionado à região onde o peixe foi encontrado.

Sua distribuição conhecida, entretanto, é extraordinariamente pequena.

A espécie foi localizada na bacia do rio Cajari, no Amapá, no extremo norte brasileiro, em pequenos ambientes aquáticos dentro da floresta.

Até agora, cientistas encontraram o Laimosemion laranja em apenas três pequenas poças.

Somadas, as localidades conhecidas ocupam uma área estimada em somente 25 quilômetros quadrados.

E é justamente esse número que transforma uma descoberta interessante em motivo de preocupação.

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© Domenichini Giuliano – Shutterstock

As três poças conhecidas já apresentam sinais de pressão humana

Ambientes pequenos e rasos são comuns entre os rivulídeos, mas essa especialização também pode deixá-los particularmente vulneráveis.

Algumas espécies dessa família apresentam um ciclo de vida extraordinário.

Quando as poças sazonais secam, os peixes adultos morrem. Seus ovos, porém, conseguem permanecer no solo úmido com o desenvolvimento temporariamente interrompido. Quando as chuvas retornam e a água reaparece, o ciclo recomeça.

Segundo Abrantes, o gênero Laimosemion representa um dos cinco casos em que esse estilo de vida anual teria surgido independentemente dentro da família.

O problema para a nova espécie é que seu pequeno mundo já está mudando.

Os pesquisadores identificaram ameaças relacionadas a desmatamento, mineração e expansão urbana nas áreas onde o peixe foi encontrado.

Em uma das poças, a água apresenta alterações provocadas por sedimentos associados à atividade mineradora. Outra fica em uma área urbana e sofre com a presença de resíduos plásticos.

Com apenas três localidades conhecidas, uma alteração relativamente pequena no território pode atingir uma parcela considerável da população da espécie.

Por isso, os autores do estudo consideram que o Laimosemion laranja atende aos critérios para ser classificado como Em Perigo na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

A espécie pode precisar de proteção praticamente desde o momento em que ganhou um nome

Uma das medidas sugeridas pelos pesquisadores é ampliar os limites da Reserva Extrativista do Rio Cajari, área protegida próxima das localidades onde o peixe foi encontrado.

A expansão poderia incorporar os pequenos cursos d’água dos quais a espécie depende e oferecer maior proteção contra transformações do território.

O caso também revela um problema maior da biodiversidade amazônica.

Animais grandes e conhecidos tendem a concentrar atenção, mas existem inúmeras espécies pequenas com distribuições extremamente restritas. Em alguns casos, elas podem depender de apenas algumas poças, riachos ou fragmentos de floresta.

Isso significa que uma espécie pode começar a desaparecer antes mesmo de ser formalmente conhecida pela ciência.

Peixes de água doce estão entre os grupos particularmente vulneráveis à degradação ambiental, e espécies dependentes de pequenos corpos d’água podem sentir rapidamente alterações no solo, na qualidade da água ou na vegetação ao redor.

O novo peixe amazônico resume esse paradoxo.

A ciência acaba de descobrir e nomear uma espécie de menos de três centímetros, marcada por pequenas manchas laranjas. Mas, ao mesmo tempo, descobriu que todo o mundo conhecido desse animal está concentrado em três poças cercadas por ameaças que já chegaram até a água.

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