Quando pensamos nas grandes ameaças ambientais, mudanças climáticas, desmatamento, poluição e perda de biodiversidade aparecem rapidamente na lista. Mas existe outra transformação acontecendo debaixo da superfície de oceanos, rios e lagos. Ela é praticamente invisível, avança em diferentes regiões e pode alterar profundamente a vida aquática. Agora, pesquisadores alertam que suas consequências podem permanecer durante séculos, mesmo depois que algumas de suas causas forem controladas.
A água do planeta está perdendo algo indispensável para a vida

Peixes, crustáceos e inúmeros organismos aquáticos dependem do oxigênio dissolvido na água para sobreviver. Mesmo espécies que respiram ar atmosférico, como diversos mamíferos marinhos, dependem de cadeias alimentares sustentadas por organismos que necessitam desse oxigênio.
É justamente esse recurso que está diminuindo.
Um estudo liderado por pesquisadores do Instituto Scripps de Oceanografia, da Universidade da Califórnia em San Diego, alerta que a desoxigenação dos sistemas aquáticos deveria ser encarada como uma ameaça ambiental global.
O problema não está restrito aos oceanos.
Lagos, rios e outras massas de água também podem sofrer reduções significativas de oxigênio, comprometendo habitats e alterando o equilíbrio entre espécies.
Os pesquisadores destacam três grandes forças por trás do fenômeno: o aquecimento global provocado pelas atividades humanas, o excesso de nutrientes provenientes principalmente da agricultura e da indústria e mudanças na circulação das águas profundas.
Esses fatores ainda podem agir simultaneamente.
À medida que a temperatura aumenta, a água consegue reter menos oxigênio. Ao mesmo tempo, mudanças na circulação podem dificultar a reposição desse gás em regiões profundas.
Já o excesso de nutrientes desencadeia outro processo preocupante.
Fertilizantes podem contribuir para criar regiões com pouco oxigênio
Quando grandes quantidades de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, chegam a rios, lagos e zonas costeiras, podem estimular uma proliferação intensa de algas.

Quando esses organismos morrem, sua decomposição consome oxigênio da água.
Em situações extremas, surgem áreas com níveis tão baixos que muitos organismos precisam fugir ou simplesmente não conseguem sobreviver.
O resultado pode ser uma reação em cadeia.
Se pequenos organismos desaparecem, animais que dependem deles perdem alimento. Peixes podem migrar para outras regiões, predadores precisam acompanhá-los e habitats inteiros podem ser reorganizados.
Erica Ferrer, principal autora da pesquisa realizada durante seu doutorado no Scripps, destaca que a estabilidade do planeta está diretamente relacionada à saúde dos ecossistemas aquáticos.
A preocupação dos pesquisadores é justamente mostrar que a desoxigenação não ocorre de forma isolada.
Ela interage com outras grandes transformações ambientais e pode intensificar problemas que já preocupam cientistas há décadas.
Por isso, a equipe apresenta uma proposta ambiciosa: mudar a maneira como classificamos essa ameaça.
Cientistas querem reconhecer um décimo limite planetário
Em 2009, pesquisadores desenvolveram o conceito dos limites planetários, um modelo destinado a identificar processos ambientais essenciais para manter a Terra dentro de condições relativamente estáveis para as sociedades humanas.
O sistema considera atualmente nove grandes processos, entre eles mudanças climáticas, integridade da biosfera, acidificação dos oceanos e introdução de novas entidades, categoria relacionada a diferentes formas de poluição química.
A equipe do Scripps argumenta que a desoxigenação das águas deveria ser considerada separadamente como um décimo processo.
A justificativa é que a perda de oxigênio não representa apenas uma consequência de outros problemas ambientais. Ela também pode contribuir para agravá-los.
Mudanças na disponibilidade de oxigênio interferem em processos químicos e biológicos que ocorrem nos ambientes aquáticos. Essas alterações podem afetar ciclos de nutrientes, habitats, biodiversidade e mecanismos relacionados ao sistema climático.
Lisa Levin, oceanógrafa biológica do Scripps e uma das autoras do trabalho, acompanha essa discussão com Ferrer há anos.
Uma experiência em particular ajudou a reforçar a percepção de que o problema recebia menos atenção do que deveria.
Um encontro em 2019 ajudou a mudar a percepção das pesquisadoras
Durante a conferência climática das Nações Unidas realizada em Madri, em 2019, Ferrer e Levin perceberam que a perda de oxigênio aparecia repetidamente nas discussões, mas normalmente como consequência secundária de assuntos considerados maiores, como mudanças climáticas e poluição.
Para as pesquisadoras, essa separação escondia uma característica fundamental do fenômeno.
Todos esses problemas estão conectados.
O aquecimento altera a quantidade de oxigênio disponível. A poluição por nutrientes favorece sua redução. A perda de oxigênio, por sua vez, modifica ecossistemas e processos químicos que influenciam outros componentes do sistema terrestre.
Mas talvez o aspecto mais preocupante esteja na escala de tempo.
Segundo a revisão científica, algumas transformações provocadas por períodos prolongados de desoxigenação podem persistir durante séculos. Isso significa que recuperar determinados ecossistemas pode ser muito mais difícil e demorado do que simplesmente eliminar a fonte original do problema.
Reduzir emissões de gases de efeito estufa e controlar o excesso de nutrientes provenientes de atividades humanas estão entre as medidas capazes de enfrentar as causas do fenômeno.
O alerta dos pesquisadores mostra, porém, que existe urgência.
Debaixo da superfície, uma mudança praticamente invisível já está acontecendo. E aquilo que desaparecer das águas nas próximas décadas pode levar gerações para voltar.
[Fonte: meteored]