Pesquisadores brasileiros deram um passo importante na busca pela cura do HIV. Em um ensaio clínico conduzido pela Unifesp, um paciente apelidado de “Paciente de São Paulo” conseguiu manter o vírus indetectável por mais de um ano sem o uso do coquetel convencional. Apesar do avanço, especialistas destacam que ainda há pontos a esclarecer e que o tratamento não foi reconhecido oficialmente como cura.
Como funciona o tratamento experimental
Iniciado em 2015, o estudo reuniu 30 homens latinos, com média de 38 anos, todos em tratamento regular contra o HIV. A proposta era combinar o coquetel tradicional com três medicamentos adicionais: alguns capazes de eliminar células infectadas e outros de “acordar” o vírus adormecido, expondo-o ao ataque dos antirretrovirais.
Após 48 semanas de uso, a medicação foi suspensa para observar a evolução da carga viral. Enquanto a maioria dos participantes voltou a apresentar o vírus em poucas semanas, um paciente — identificado como P13 — manteve o HIV indetectável por 78 semanas consecutivas.
O que significa “cura funcional”
Durante esse período, o paciente não apresentou sinais de vírus ativo nem anticorpos, situação considerada rara e descrita por infectologistas como uma “cura funcional”. Diferente da erradicação completa, essa condição significa que o corpo mantém o controle da doença sem necessidade de tratamento contínuo.
Segundo o médico Ricardo Sobhie Diaz, coordenador da pesquisa, o uso da nicotinamida foi fundamental para estimular o vírus latente, permitindo que o coquetel o eliminasse de forma eficaz. Essa estratégia ataca um dos maiores desafios da ciência: os reservatórios virais, que permanecem escondidos nas células mesmo durante o tratamento convencional.

Reinfecção e limites do estudo
O resultado, no entanto, não foi reconhecido internacionalmente como cura. Em 2021, o paciente voltou a apresentar HIV após contrair sífilis, levantando dúvidas sobre se o vírus havia retornado de um reservatório ou se se tratava de uma nova infecção. Atualmente, ele voltou ao tratamento convencional.
Especialistas como a infectologista Keilla Freitas apontam que ainda há muitas perguntas em aberto: por que apenas um dos 30 voluntários alcançou esse resultado? Qual o real papel das coinfecções nesse processo? Essas incertezas mostram que o caminho para uma terapia definitiva ainda é longo.
Avanços e comparação com outros casos
Até hoje, apenas sete pessoas foram oficialmente reconhecidas como curadas do HIV, todas após transplante de medula óssea ou células-tronco, geralmente realizados para tratar câncer. O caso mais famoso é o de Timothy Ray Brown, o “paciente de Berlim”, curado em 2008.
A pesquisa brasileira se destaca por propor uma abordagem menos invasiva, com menos riscos e efeitos colaterais, abrindo uma nova frente de investigação científica. Embora ainda incerta, a experiência mostra que estratégias farmacológicas combinadas podem ter potencial para transformar a luta contra o HIV.
Fonte: Metrópoles