Em datas românticas, volta a pergunta que acompanha a humanidade há milênios: existe uma única pessoa destinada a nós? A noção de alma gêmea moldou poemas, filmes e expectativas afetivas. Mas, longe das narrativas idealizadas, a ciência tem investigado o que realmente sustenta relacionamentos duradouros. E as respostas desafiam a ideia de que o amor é apenas obra do destino.
De Platão aos aplicativos: como a ideia de alma gêmea ganhou força

A crença em um par predestinado não é nova. Na Grécia antiga, Platão sugeriu que os humanos já foram seres completos divididos pelos deuses, condenados a buscar sua outra metade. Séculos depois, trovadores medievais e lendas arturianas reforçaram a ideia de amor exclusivo e eterno.
Com o tempo, o romantismo ganhou novos contornos. No Renascimento, Shakespeare falava de amantes “marcados pelas estrelas”. Já na era moderna, o cinema consolidou a narrativa do amor arrebatador e inevitável.
Segundo o psicólogo social Viren Swami, da Anglia Ruskin University, a ideia contemporânea de escolher uma única pessoa para toda a vida se fortaleceu na Europa medieval. Antes disso, o amor era mais fluido e menos centrado na exclusividade.
A industrialização e o enfraquecimento das comunidades tradicionais intensificaram o desejo de encontrar alguém que oferecesse segurança emocional em meio à instabilidade social. Hoje, aplicativos de relacionamento transformam essa busca em algoritmo, criando o que Swami chama de “consumo de relacionamentos”.
O problema é que a expectativa de encontrar “a pessoa perfeita” pode se transformar em frustração constante.
Destino ou construção? O que dizem os estudos

Jason Carroll, professor da Brigham Young University, propõe uma distinção importante: entre acreditar em destino e acreditar em construção.
Pesquisas em psicologia diferenciam as chamadas “crenças no destino” — a ideia de que o relacionamento certo deve fluir naturalmente — das “crenças de crescimento”, que defendem que vínculos fortes são construídos com esforço, adaptação e aprendizado mútuo.
Estudos conduzidos pelo pesquisador C. Raymond Knee mostraram que pessoas que acreditam em destino tendem a questionar o relacionamento diante de conflitos. Já aquelas com mentalidade de crescimento demonstram maior comprometimento mesmo após desentendimentos.
Carroll argumenta que a armadilha da alma gêmea não está no romantismo, mas na expectativa de que o amor não deva exigir trabalho. Relações duradouras, segundo ele, não se sustentam apenas na intensidade inicial, mas na disposição de enfrentar imperfeições e desafios.
A coach britânica Vicki Pavitt acrescenta outro ponto: a química intensa pode, às vezes, estar ligada a padrões emocionais antigos e pouco saudáveis. O que parece destino pode ser, na verdade, familiaridade com dinâmicas instáveis.
Estudos sobre “vínculo traumático” indicam que relações marcadas por alternância entre afeto e rejeição podem gerar apego intenso, confundido com amor predestinado.
Hormônios, algoritmos e múltiplas possibilidades
A biologia também entra na conversa. Pesquisas mostram que hormônios e até o uso de contraceptivos podem influenciar a percepção de atração e satisfação no relacionamento. Mudanças hormonais podem alterar sutilmente a forma como o parceiro é percebido ao longo do tempo.
Se fatores biológicos influenciam escolhas amorosas, a ideia de um único par predeterminado perde força.
A matemática reforça essa visão. O economista Greg Leo desenvolveu modelos de compatibilidade que sugerem que não existe apenas uma combinação ideal. Em simulações, participantes frequentemente apareciam como segunda ou terceira melhor escolha um do outro — e mesmo assim formavam pares estáveis e satisfatórios.
Em vez de uma única alma gêmea, o modelo aponta múltiplas possibilidades compatíveis.
O que realmente sustenta um amor duradouro
Pesquisas sociológicas trazem uma conclusão menos cinematográfica, mas talvez mais realista. Em estudo com milhares de participantes, a pesquisadora Jacqui Gabb constatou que pequenos gestos cotidianos — como preparar uma xícara de chá, aquecer o carro numa manhã fria ou compartilhar um sorriso discreto — têm impacto maior na sensação de valorização do que grandes demonstrações públicas de romantismo.
A satisfação no relacionamento estava mais ligada ao que ela chama de “conhecimento íntimo do casal”: a compreensão profunda das fragilidades, pressões e desafios enfrentados juntos.
A ciência não elimina o romantismo — apenas o reposiciona. Em vez de esperar que o universo entregue a pessoa perfeita, os dados sugerem que conexões profundas surgem quando duas pessoas imperfeitas decidem construir algo em conjunto.
Talvez o verdadeiro paradoxo seja este: relações que parecem “destinadas” a acontecer costumam ser fruto de escolhas conscientes, repetidas dia após dia.
[Fonte: Correio Braziliense]