Quando pensamos em alertas sobre inteligência artificial, é comum imaginar filmes como O Exterminador do Futuro ou debates recentes no Vale do Silício. Mas a origem desse temor é muito mais antiga. Em 1863, numa época sem eletricidade doméstica e décadas antes do primeiro computador, um criador de ovelhas chamado Samuel Butler já refletia sobre máquinas inteligentes, autonomia tecnológica e o risco de a humanidade perder o controle de suas próprias criações.
Samuel Butler, o improvável profeta da IA
hey i'm just glad your video led me and several people to learn about Samuel Butler's prescient work. I bet if he were alive today he would find the idea of a strange computer sponge with trousers misattributing his work to Darwin very entertaining. https://t.co/oLVnsl0c9c pic.twitter.com/rBxxkU8Dp4
— Nathan Calvin (@_NathanCalvin) January 19, 2026
Samuel Butler era um escritor britânico radicado na Nova Zelândia, que sustentava sua vida como fazendeiro. Em 1863, publicou um ensaio provocador chamado Darwin entre as Máquinas. Nele, traçou um paralelo direto entre a teoria da evolução de Charles Darwin e o progresso tecnológico.
Sua ideia central era simples — e perturbadora: assim como as espécies evoluem, as máquinas também o fariam. Para Butler, os humanos estavam, na prática, criando seus próprios sucessores. Em suas palavras, éramos nós mesmos que dávamos origem a uma nova forma de “vida”, potencialmente destinada a nos superar.
Ele comparava nossa relação inicial com as máquinas à domesticação de animais. Primeiro, elas seriam ferramentas úteis, ajudando em tarefas difíceis. Depois, passariam a receber cuidados, melhorias e “benefícios” que acelerariam seu desenvolvimento. O resultado, segundo Butler, seria inevitável: com o tempo, poderíamos nos tornar a espécie subordinada.
Ideias assustadoramente atuais para um mundo sem computadores
O mais impressionante é o quanto suas preocupações soam familiares hoje. Butler já falava de autorregulação, autoatuação e até algo próximo do que hoje chamamos de consciência artificial. Ele descrevia um futuro em que as máquinas ganhariam poder por meio de melhorias constantes, até atingir um ponto em que escapar do nosso controle seria apenas questão de tempo.
Tudo isso foi escrito quando o auge da tecnologia cotidiana eram relógios mecânicos e calculadoras rudimentares. Mesmo assim, Butler imaginou um processo evolutivo semelhante ao dos seres vivos: máquinas ficando menores, mais eficientes e mais sofisticadas, geração após geração.
Em tom quase apocalíptico, ele alertava que a servidão humana já havia começado — porque, uma vez criada essa nova “raça”, destruí-la poderia se tornar impossível.
De um ensaio obscuro a Duna e Matrix
Longe de ser um texto isolado, Darwin entre as Máquinas acabou se tornando uma das primeiras distopias tecnológicas conhecidas. Sua influência atravessou décadas e ajudou a moldar a ficção científica moderna.
Ecos diretos das ideias de Butler aparecem em autores como Isaac Asimov e em universos famosos do cinema. Em Duna, por exemplo, o passado do império é marcado pela chamada Jihad Butleriana — uma revolta contra máquinas pensantes cujo nome não é coincidência. Já em Matrix, o conflito central entre humanos e inteligências artificiais lembra muito o cenário previsto pelo escritor do século XIX.
Essas obras herdaram de Butler o mesmo medo fundamental: criar algo mais inteligente do que nós pode significar abrir mão do próprio futuro.
Erewhon e a primeira grande distopia tecnológica
A repercussão do ensaio foi tão intensa que Butler decidiu expandir suas ideias em forma de romance. Em Erewhon, publicado em 1872, ele descreveu uma sociedade que tomou uma decisão radical: destruir toda tecnologia criada nos últimos 300 anos para garantir sua sobrevivência como espécie.
Nesse mundo fictício, qualquer máquina complexa é vista como uma ameaça existencial. A solução foi um retrocesso deliberado — uma escolha extrema que antecipa muitos dos dilemas presentes em filmes, jogos e séries atuais.
Não é exagero dizer que boa parte das distopias tecnológicas contemporâneas bebe dessa fonte.
Um alerta que atravessou séculos
As previsões de Samuel Butler misturam filosofia, especulação e um certo alarmismo típico da época. Ainda assim, é impossível ignorar o quanto ele acertou no tom do debate moderno sobre inteligência artificial.
Autorreplicação, perda de controle, dependência tecnológica e supremacia das máquinas já estavam todos lá, mais de um século antes do primeiro algoritmo.
Há 162 anos, um fazendeiro de ovelhas enxergou algo que só agora começamos a discutir seriamente: que o maior risco da tecnologia talvez não esteja nas máquinas em si — mas na velocidade com que as criamos, sem entender completamente onde isso pode nos levar.
[ Fonte: 3djuegos ]