Uma IA para “prever o clima do espaço”
Disponível no Hugging Face, Surya é um modelo fundacional de código aberto criado para analisar imagens de alta resolução do Sol e prever erupções e tempestades solares com mais precisão do que nunca.
Segundo a NASA, a ferramenta pode detectar regiões ativas do Sol e antecipar chamas solares (flares) e eyeções de massa coronal — eventos capazes de danificar satélites, redes elétricas e sistemas de comunicação.
“Pense nisso como uma previsão do tempo para o espaço”, explicou Juan Bernabé-Moreno, diretor da IBM Research Europa. “Precisamos nos preparar para as tempestades solares da mesma forma que fazemos com furacões ou enchentes.”
Por que isso importa (muito)

O Sol pode estar a 150 milhões de quilômetros de distância, mas seus efeitos são imediatos. Uma grande tempestade solar poderia causar:
- Danos irreversíveis a satélites e sondas espaciais
- Perda de GPS e interrupções em rotas de voos
- Pane em redes elétricas e apagões em larga escala
- Risco de radiação para astronautas e tripulantes de aviões
- Queda na produção de alimentos, com a agricultura dependente do GPS
De acordo com a seguradora Lloyd’s, uma supertempestade poderia gerar perdas de até US$ 2,4 trilhões para a economia global em apenas cinco anos. E os sinais de alerta já estão por aí: eventos recentes derrubaram serviços GPS, forçaram desvio de voos e danificaram satélites em órbita.
Como funciona a IA da IBM e da NASA
Surya é IA científica de última geração, diferente dos modelos de texto como o ChatGPT. Ele foi treinado com nove anos de imagens de altíssima resolução do Solar Dynamics Observatory da NASA e combina várias tecnologias avançadas:
- Deep Learning → redes neurais profundas para identificar padrões no Sol
- CNNs + Transformers → as CNNs processam imagens; os Transformers analisam a evolução temporal das erupções
- Modelos fundacionais multimodais → pré-treinado com dados solares massivos e ajustável para diferentes tarefas
- Aprendizado supervisionado e auto-supervisionado → aprende sozinho padrões gerais e, depois, refina com dados anotados por físicos
- Predições probabilísticas → em vez de “sim ou não”, indica níveis de risco para diferentes classes de tempestades (C, M ou X)
Essa combinação permite que Surya identifique regiões ativas no Sol e preveja visualmente uma erupção com até duas horas de antecedência, fornecendo imagens de alta resolução com localização exata do evento.
Avanço científico e código aberto
Treinar Surya foi um desafio enorme: as imagens usadas são 10 vezes maiores que os datasets de IA convencionais. Para lidar com esse volume, a IBM desenvolveu uma infraestrutura personalizada com suporte para GPUs e TPUs, garantindo processamento em larga escala sem perder eficiência.
Segundo Kevin Murphy, diretor de dados da NASA:
“Estamos integrando a experiência científica da NASA com modelos de IA de ponta. Isso nos permite entender melhor como o Sol impacta sistemas críticos na Terra, desde telecomunicações até energia elétrica.”
Além disso, a escolha de tornar Surya open source no Hugging Face abre caminho para que pesquisadores, universidades e startups criem novas aplicações científicas para diferentes setores, de telecomunicações à aviação.
Um futuro mais protegido (e colaborativo)

Surya não é um projeto isolado: ele faz parte de uma iniciativa maior da IBM e da NASA para desenvolver modelos fundacionais científicos. A família inclui, por exemplo, o Prithvi, focado em previsões meteorológicas e mudanças climáticas, também disponível no Hugging Face.
Essa abertura de dados e algoritmos reforça uma tendência: democratizar a IA científica para acelerar descobertas e criar soluções colaborativas para problemas globais.
Se uma supertempestade solar atingisse a Terra hoje, a internet, os satélites e até a aviação poderiam entrar em colapso. Com Surya, a ciência ganha uma arma poderosa para antecipar riscos. Mas será que estaremos prontos quando o Sol decidir nos testar?
[ Fonte: Forbes ]