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Lionsgate descobre que fazer filmes com IA é muito mais difícil do que parece

A ideia parecia ousada: transformar franquias famosas em novos produtos audiovisuais com a ajuda de inteligência artificial generativa. Mas a Lionsgate, estúdio responsável por sucessos como John Wick e Jogos Vorazes, está descobrindo que o caminho para essa revolução tecnológica é mais tortuoso do que o esperado.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O plano envolvia uma parceria inédita com a Runway AI, mas a promessa de criar filmes inteiros em poucas horas ainda não saiu do papel — e os obstáculos vão de limitações técnicas até dilemas legais complexos.

A promessa de um cinema “instantâneo”

No início deste ano, o vice-presidente da Lionsgate, Michael Burns, surpreendeu ao afirmar que o estúdio poderia pegar uma de suas franquias de peso e relançá-la em versão anime gerada por IA em questão de horas. A aposta parecia colocar Hollywood diante de uma mudança radical, com a possibilidade de “reciclar” histórias de forma quase automática.

No entanto, o entusiasmo inicial esbarrou em uma dura realidade: os modelos de inteligência artificial ainda exigem quantidades gigantescas de dados para entregar resultados consistentes. E nem mesmo o extenso catálogo da Lionsgate seria suficiente para treinar uma ferramenta desse porte.

O problema dos dados insuficientes

De acordo com reportagem do The Wrap, a Runway recebeu acesso ao acervo completo da Lionsgate para desenvolver um modelo exclusivo de geração de vídeo. Mas logo ficou claro que a biblioteca não fornecia dados suficientes.

Para que um modelo pudesse, por exemplo, recriar efeitos de iluminação de forma convincente, seriam necessárias milhares de referências visuais. Mesmo gigantes como a Disney não teriam material suficiente para alimentar um sistema desse nível.

Esse gargalo técnico ajuda a explicar por que modelos de vídeo mais avançados, como o Sora (da OpenAI) ou o Veo (do Google), ainda apresentam falhas visíveis — personagens que se movem de forma estranha, ambientes que “derretem” e detalhes que quebram a ilusão de realidade. Com menos dados, os erros se multiplicam.

O labirinto jurídico

Além dos limites técnicos, surgem questões legais que ainda não têm resposta clara. Se a Lionsgate criasse um longa em versão anime a partir de John Wick, por exemplo, quem deveria ser pago? Apenas os atores principais, ou também roteiristas, diretores, figurinistas e até técnicos de iluminação?

O fato de o estúdio deter os direitos autorais não elimina a complexidade de contratos, participações e acordos já estabelecidos. Como muitas dessas situações não têm precedentes, o risco de disputas judiciais é altíssimo.

Burns chegou a admitir que precisaria remunerar alguns dos envolvidos para comercializar versões alternativas, mas até agora não há consenso sobre quem se enquadraria nessa lista.

O discurso oficial da Lionsgate

Em declaração ao Gizmodo, Peter Wilkes, diretor de comunicação da Lionsgate, adotou um tom otimista. “Estamos muito satisfeitos com nossa parceria com a Runway e com outras iniciativas de IA, que estão progredindo conforme o planejado. Vemos a IA como uma ferramenta importante para nossos cineastas e já a aplicamos em vários projetos para aumentar qualidade, eficiência e oportunidades criativas”, afirmou.

Wilkes também destacou que a inteligência artificial já ajuda a empresa a reduzir custos e otimizar a gestão de licenciamento de filmes e séries, reforçando que a tecnologia segue no centro da estratégia de futuro do estúdio.

Para onde vai a parceria com a Runway

Ainda não está claro se a Lionsgate conseguirá de fato lançar filmes completos gerados por IA. Relatos sugerem que a Runway vem sendo usada de outras formas, como na criação de trailers artificiais de filmes que sequer começaram a ser rodados.

A lógica seria vender a ideia para investidores e executivos a partir de cenas simuladas por IA, encurtando processos de aprovação e reduzindo riscos. Mas se essa prática realmente beneficia o público ou os profissionais da indústria é uma questão em aberto.

Um futuro cheio de perguntas

A experiência da Lionsgate revela o choque entre a ambição de Hollywood e os limites atuais da tecnologia. Embora a IA generativa já seja usada para acelerar fluxos de trabalho e reduzir custos, criar filmes inteiros a partir dela ainda parece um sonho distante.

No fim, a iniciativa levanta um debate maior: até onde o cinema pode — ou deve — ser automatizado? E quem se beneficiará dessa transformação: os estúdios, os criadores ou o público?

 

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