A inteligência artificial deixou de ser apenas um debate técnico e passou a ocupar o centro das decisões geopolíticas. Em meio a disputas por dados, infraestrutura e poder digital, líderes mundiais se reuniram para discutir quem controlará a próxima grande revolução tecnológica. Foi nesse cenário que o presidente brasileiro decidiu adotar um tom direto — reconhecendo avanços, mas também apontando riscos que podem redesenhar democracias, mercados e relações internacionais.
Um palco global para discutir poder e tecnologia

Desde o início da semana, Nova Déli se tornou o centro das atenções no debate sobre o futuro digital. A capital indiana sediou a Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial 2026, considerada a primeira grande conferência internacional sobre IA realizada no chamado Sul Global.
O evento reuniu chefes de Estado, primeiros-ministros, executivos de tecnologia, pesquisadores e representantes da sociedade civil. Durante cinco dias, os debates giraram em torno de segurança, governança, ética e colaboração internacional em inteligência artificial.
Foi nesse ambiente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou na quarta-feira para cumprir sua agenda oficial. O principal momento ocorreu na quinta-feira, quando discursou diante de líderes globais.
No pronunciamento, Lula destacou que toda grande inovação carrega um caráter dual. Segundo ele, avanços tecnológicos podem impulsionar desenvolvimento, mas também gerar ameaças profundas.
O presidente comparou a inteligência artificial a revoluções anteriores, como a aviação, a engenharia genética e a corrida espacial. Em todos esses casos, os benefícios vieram acompanhados de dilemas éticos e riscos estratégicos.
Ao falar sobre a IA, Lula citou aplicações positivas na indústria, nos serviços públicos, na medicina, na segurança alimentar e na produção de energia. Porém, alertou para usos que classificou como extremamente nefastos, incluindo armas autônomas, disseminação de desinformação, discurso de ódio, exploração sexual infantil e precarização do trabalho.
Também chamou atenção para o impacto de conteúdos manipulados por IA em processos eleitorais, afirmando que essas ferramentas podem distorcer a informação e colocar democracias sob pressão.
Regulamentação, big techs e disputa por soberania digital
Um dos pontos centrais do discurso foi a defesa da regulamentação das grandes empresas de tecnologia. Lula afirmou que algoritmos não são apenas códigos matemáticos, mas parte de uma estrutura complexa de poder.
Para ele, sem ação coletiva internacional, a inteligência artificial tende a aprofundar desigualdades históricas. O presidente destacou que infraestrutura, capacidade computacional e capital estão concentrados em poucos países e conglomerados, enquanto dados gerados por cidadãos e instituições acabam apropriados sem retorno proporcional de valor para os territórios de origem.
A crítica também se estendeu ao modelo de negócios baseado na exploração de dados pessoais e na monetização de conteúdos sensacionalistas, que, segundo Lula, ampliam radicalizações políticas e fragilizam o debate público.
No mesmo dia, o presidente se reuniu com Sundar Pichai, CEO do Google. Durante o encontro, foram discutidos investimentos no Brasil, incluindo o Centro de Engenharia em São Paulo e parcerias com o setor público.
Do lado brasileiro, Lula apresentou a visão do Palácio do Planalto para o desenvolvimento da inteligência artificial, além de projetos voltados à atração de investimentos em data centers. A preocupação com riscos associados às IAs também esteve na pauta.
Cooperação internacional e agenda estratégica
A visita à Índia não se limitou ao discurso na cúpula. Na sexta-feira, o governo brasileiro promoveu um evento paralelo chamado “IA para o bem de todos”, reunindo ministros das áreas de Ciência e Tecnologia, Educação, Saúde, Comunicações e Gestão Pública.
No sábado, Lula cumprirá visita de Estado e se reunirá com o primeiro-ministro Narendra Modi. Entre os temas previstos estão cooperação em comércio, investimentos, defesa, aviação, tecnologias digitais, inteligência artificial, transição energética, minerais críticos e saúde.
Segundo dados oficiais, em 2025 a Índia foi o quinto maior parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio de US$ 15,2 bilhões.
Após a agenda em Nova Déli, Lula seguirá para Seul, onde se encontrará com o presidente Lee Jae Myung e executivos de grandes empresas sul-coreanas. Também está previsto um fórum empresarial com mais de 200 executivos brasileiros.
A mensagem central da viagem é clara: inteligência artificial não é apenas uma inovação tecnológica, mas um eixo estratégico de desenvolvimento, poder e soberania. E o debate sobre quem define suas regras está apenas começando.
[Fonte: Olhar digital]