No início de fevereiro, banhistas em uma praia na Baixa Califórnia do Sul, no México, foram surpreendidos por um peixe-remo (Regalecus glesne), uma criatura que normalmente habita águas profundas, entre 200 e 1.000 metros de profundidade. O peixe, conhecido popularmente como “peixe do fim do mundo”, apareceu em águas rasas e foi registrado em vídeo por um dos presentes.
Esses animais podem atingir até 11 metros de comprimento, o equivalente a um ônibus escolar. No entanto, o exemplar filmado era consideravelmente menor do que aqueles registrados anteriormente. O vídeo rapidamente se espalhou pelas redes sociais, gerando grande curiosidade sobre o motivo desse aparecimento inesperado.
Enquanto alguns tentaram devolver o peixe ao mar, ele insistiu em voltar para a praia, um comportamento incomum. “Nós o redirecionamos três vezes para a água, mas ele voltou todas as vezes”, relatou um dos banhistas. Segundo especialistas, esse padrão de comportamento sugere que o peixe já estava muito debilitado e em seus momentos finais.
O peixe-remo e o mito do “fim do mundo”
Além de seu nome estar relacionado à sua aparência alongada e achatada, o peixe-remo também carrega um outro título assustador: “peixe do juízo final”. Isso porque, em diversas culturas, ele é associado a eventos sísmicos e catástrofes naturais.
A crença de que o aparecimento desse animal pressagia terremotos e tsunamis tem origem principalmente no Japão, onde há registros de que ele foi avistado antes de eventos devastadores. Em 2011, por exemplo, diversos peixes-remo surgiram em águas rasas pouco antes do terremoto que atingiu Fukushima, desencadeando um desastre nuclear.
Cientistas, no entanto, descartam qualquer relação direta entre o peixe e os abalos sísmicos. A explicação mais plausível para esses avistamentos pode estar nas mudanças ambientais e climáticas, que alteram a dinâmica dos ecossistemas marinhos.
Segundo Ben Frable, gerente da Coleção Scripps Oceanography Marine Vertebrate, eventos climáticos como El Niño e La Niña podem influenciar o deslocamento desses peixes, mas nem sempre essa é a razão. Outras possibilidades incluem mudanças na temperatura da água e o aumento da população da espécie, que poderiam forçá-los a se aventurar fora de seu habitat natural.
O enigma dos peixes de águas profundas
O peixe-remo não é o único habitante misterioso das profundezas que, ocasionalmente, surge perto da superfície. Outro exemplo recente foi o avistamento do “diabo negro” (Melanocetus johnsonii), um peixe abissal que raramente é visto fora da escuridão do oceano.
O encontro aconteceu em janeiro deste ano, nas Ilhas Canárias, quando pesquisadores da ONG espanhola Condrik Tenerife registraram um exemplar do “diabo negro” nadando próximo à superfície, a apenas dois quilômetros da costa. Esse peixe, conhecido por sua aparência assustadora e dentes afiados, costuma habitar profundidades entre 200 e 2.000 metros.
Apesar de parecer uma criatura monstruosa, o animal flagrado na filmagem media apenas 3 centímetros de comprimento. A ilusão de ótica causada pela câmera subaquática fez com que ele parecesse muito maior. No caso desse registro, tratava-se de um macho, que costuma ser bem menor do que as fêmeas, que podem atingir até 18 centímetros ou mais.
Ainda há muito a descobrir
A ciência ainda tem muitas perguntas sem resposta sobre os habitantes das profundezas oceânicas. O peixe-remo, por exemplo, nunca foi estudado em seu habitat natural, já que vive em locais de difícil acesso. Suas aparições em águas rasas continuam sendo eventos raros e difíceis de prever.
Para especialistas, o aumento desses encontros pode indicar mudanças ambientais mais amplas, como alterações na temperatura e composição dos oceanos. Com a evolução das tecnologias de exploração marinha, novas descobertas podem ajudar a desvendar os mistérios dessas criaturas e seu papel no ecossistema.
Enquanto isso, os avistamentos esporádicos de peixes como o remo e o diabo negro continuam fascinando o público e alimentando a imaginação popular. Afinal, o que mais pode estar escondido nas profundezas do oceano?
[Fonte: Um só planeta]