Durante muito tempo, Marte foi retratado como um planeta árido, frio e hostil, um contraste absoluto com a Terra. No entanto, sob sua superfície avermelhada, cientistas vêm encontrando pistas cada vez mais consistentes de que esse cenário nem sempre foi assim. Canais secos, minerais alterados pela água e formações sedimentares antigas sustentam uma hipótese que ganha força: o Planeta Vermelho pode ter sido, em um passado distante, surpreendentemente azul.
Um novo estudo publicado na revista npj Space Exploration acrescenta evidências robustas a essa narrativa ao sugerir que Marte abrigou um vasto oceano estável há bilhões de anos, capaz de sustentar ciclos hidrológicos prolongados e, possivelmente, condições favoráveis à vida.
Uma região-chave para entender o passado marciano

A pesquisa concentrou-se em uma das estruturas mais impressionantes do Sistema Solar: o sistema de cânions Valles Marineris, que se estende por mais de 4.000 quilômetros ao longo do equador marciano. Dentro dele, os cientistas analisaram o sudeste de Coprates Chasma, um cânion com cerca de 1.000 quilômetros de comprimento.
Nessa região, foram identificadas formações chamadas de depósitos de frente escarpada — estruturas que, na Terra, costumam se formar em deltas fluviais, onde rios deságuam em oceanos ou grandes mares. Esse tipo de assinatura geológica raramente surge sem a presença prolongada de grandes volumes de água.
“Esses instrumentos funcionam como uma verdadeira máquina do tempo geológico, permitindo reconstruir as condições antigas do planeta”, explicou Ignatius Argadestya, geólogo planetário da Universidade de Berna, na Suíça, e autor principal do estudo.
Olhar combinado de várias missões espaciais
Para chegar a essas conclusões, a equipe combinou imagens e dados de diferentes missões, como a Mars Reconnaissance Orbiter, da NASA, a Mars Express, da Agência Espacial Europeia, e a ExoMars Trace Gas Orbiter. A integração dessas observações permitiu mapear a morfologia do terreno com alto grau de detalhe, inclusive em áreas atualmente cobertas por dunas moldadas pelo vento marciano.
Segundo estimativas da NASA, Marte já teve pelo menos 8 milhões de quilômetros cúbicos de água — um volume superior ao do Oceano Ártico terrestre. Se essa quantidade existisse hoje, cobriria cerca de 19% da superfície do planeta, com profundidades que poderiam chegar a mais de 1,5 quilômetro em alguns pontos.
Uma antiga linha costeira gravada na rocha
O dado mais revelador surgiu ao analisar a altitude e a idade dos depósitos escarpados. Eles aparecem consistentemente em um intervalo estreito de elevação, entre 3.650 e 3.750 metros abaixo do nível de referência marciano, tanto em Valles Marineris quanto nas planícies do hemisfério norte. Além disso, as formações datam de cerca de 3,37 bilhões de anos atrás.
Essa coincidência levou os pesquisadores a uma conclusão direta: os depósitos marcam uma antiga linha costeira. Em outras palavras, indicam a borda de um oceano que ocupou grande parte do hemisfério norte de Marte, com dimensões comparáveis às do Oceano Ártico da Terra.
“A principal implicação é que Marte pode ter mantido água superficial estável em escala planetária por períodos mais longos do que se pensava”, afirmou Argadestya.
Clima, tempestades e a possibilidade de vida

As evidências geológicas se alinham a dados recentes do rover Perseverance, da NASA, que identificou sinais de antigos sistemas climáticos intensos, compatíveis com grandes tempestades tropicais. Na Terra, fenômenos desse tipo exigem vastas extensões de água líquida e uma atmosfera capaz de sustentar ciclos ativos.
Um oceano estável teria regulado a temperatura marciana, impulsionado a circulação atmosférica e criado ambientes potencialmente habitáveis. Nesse contexto, a pergunta sobre a existência de vida em Marte deixa de ser mera especulação e passa a ter base científica concreta.
Ainda não há provas diretas de vida passada, mas o cenário fica mais claro: se Marte teve oceanos, rios e tempestades por milhões de anos, houve tempo suficiente para que processos biológicos simples pudessem surgir.
Hoje, a ideia de um “Marte azul” já não soa como ficção científica. Sustentada por evidências cada vez mais sólidas, ela reescreve a história do planeta vizinho e redefine nosso entendimento sobre onde a vida pode ter existido no Sistema Solar.
[ Fonte: Infobae ]