Desde que reassumiu a presidência dos Estados Unidos, Donald Trump voltou a mencionar publicamente a possibilidade de os EUA assumirem o controle da Groenlândia. As declarações reacenderam tensões diplomáticas com países europeus e colocaram novamente em evidência o valor estratégico e econômico da ilha. O que raramente entra no debate, porém, são os riscos ambientais extremos que tornam a exploração de seus recursos uma aposta cada vez mais perigosa.
Uma ilha estratégica, mas ambientalmente extrema

A Groenlândia é um território autônomo da Dinamarca e abriga apenas cerca de 56 mil habitantes, concentrados ao longo de uma costa íngreme e rochosa. Mais de 80% da ilha é coberta por uma gigantesca camada de gelo que chega a dois quilômetros de espessura.
O clima é severo, com gelo marinho bloqueando o acesso costeiro durante grande parte do ano. Essas condições sempre dificultaram empreendimentos militares e econômicos — e agora estão sendo agravadas pelas mudanças climáticas induzidas pelo ser humano.
Recursos cobiçados, riscos ignorados
Audiências no Congresso americano em 2025 destacaram a importância da Groenlândia para os EUA, citando minerais críticos, combustíveis fósseis e potencial hidrelétrico. O que quase não foi mencionado são os perigos naturais associados a esses recursos.
A região do Ártico está aquecendo mais rápido do que qualquer outra parte do planeta. Esse aquecimento acelera o derretimento do gelo, desestabiliza encostas e amplia riscos para quem vive, trabalha ou tenta explorar recursos naturais na ilha.
Fiordes instáveis e rochas em movimento

Grande parte dos minerais de interesse econômico está localizada ao longo da costa, onde o gelo não cobre o terreno. Esses locais, porém, são extremamente instáveis. Os fiordes profundos foram escavados por antigas geleiras, deixando paredes quase verticais que hoje não contam mais com o “apoio” do gelo.
O resultado são deslizamentos de terra capazes de gerar tsunamis. Em 2017, uma encosta no noroeste da Groenlândia desabou mais de 900 metros dentro de um fiorde, provocando uma onda que devastou as vilas de Nuugaatsiaq e Illorsuit, matando quatro pessoas. Em 2023, outro deslizamento gerou ondas que oscilaram dentro de um fiorde por nove dias seguidos.
Como não há uma rede de estradas pavimentadas na ilha, o transporte de equipamentos, petróleo ou minerais dependeria quase exclusivamente do mar. Portos, minas e instalações próximas ao nível do mar ficariam altamente vulneráveis a tsunamis causados por deslizamentos.
Degelo, permafrost e infraestrutura ameaçada
O aquecimento global também está descongelando o permafrost — o solo permanentemente congelado que sustenta grande parte da infraestrutura da Groenlândia. À medida que esse solo amolece, encostas se tornam ainda mais instáveis e construções começam a afundar ou inclinar.
Até mesmo instalações militares americanas enfrentam problemas. Bases aéreas sofrem com rachaduras em pistas de pouso e afundamentos no terreno, afetando radares estratégicos em operação desde a Guerra Fria.
O aumento do fluxo de gelo das geleiras gera mais icebergs, que representam uma ameaça constante a plataformas de petróleo. Navios precisam ficar de prontidão para rebocar blocos de gelo que possam colidir com estruturas no mar.
Petróleo proibido — e ainda assim cobiçado
Em 2021, o governo da Groenlândia proibiu a exploração de petróleo por razões ambientais. Ainda assim, Trump e aliados defendem a retomada da atividade, apesar dos custos elevados, dos resultados limitados de perfurações anteriores e dos riscos permanentes associados ao gelo.
Há ainda um efeito menos intuitivo do degelo: à medida que o peso do gelo diminui, o solo da Groenlândia sobe rapidamente — mais de 1,8 metro por século. Em breve, muitos portos podem se tornar rasos demais para o tráfego de grandes navios.
O verdadeiro valor estratégico da Groenlândia
A história mostra que projetos militares e coloniais fracassaram repetidamente na Groenlândia por subestimarem seu clima extremo. Colonos nórdicos abandonaram a ilha há cerca de 700 anos, e bases militares construídas dentro do gelo foram esmagadas com o tempo.
Para cientistas, o maior valor estratégico da Groenlândia não está em seus minerais nem em sua posição geográfica, mas em seu gelo. A superfície branca reflete a luz solar, ajudando a resfriar o planeta, e a enorme camada de gelo mantém água fora dos oceanos. Se todo esse gelo derreter, o nível do mar global pode subir até 7 metros, ameaçando cidades costeiras e provocando migrações em escala sem precedentes.
Ignorar esses riscos ambientais em nome de ganhos econômicos ou estratégicos, alertam especialistas, não é apenas uma aposta arriscada para a Groenlândia — mas um perigo para a estabilidade climática, econômica e política do mundo inteiro.
[ Fonte: The Conversation ]