Ondas de calor, alterações de humor e noites mal dormidas costumam dominar as conversas sobre mudanças hormonais femininas. Mas médicos e pesquisadores começaram a olhar para outro problema muito mais silencioso. Enquanto milhões de mulheres atravessam essa transição sem grandes preocupações, transformações internas podem estar acontecendo no metabolismo e no sistema cardiovascular. Agora, um amplo estudo internacional reacendeu o alerta sobre um período que talvez esteja sendo subestimado pela medicina preventiva.
A mudança hormonal que também mexe com o coração
Durante muito tempo, a perimenopausa foi vista apenas como uma etapa natural antes da menopausa. O foco geralmente ficava concentrado nos sintomas mais conhecidos, como irregularidade menstrual, irritabilidade e alterações hormonais.
Mas novas pesquisas começaram a mostrar que os efeitos dessa fase vão muito além do aspecto reprodutivo.
Cientistas dos Estados Unidos identificaram que mulheres nessa transição apresentam uma piora significativa em diversos indicadores ligados à saúde cardiovascular. O estudo, publicado no Journal of the American Heart Association, analisou dados de quase 10 mil mulheres e encontrou um padrão que chamou atenção dos especialistas.
Segundo os pesquisadores, é justamente durante a perimenopausa que vários fatores de risco começam a acelerar silenciosamente.
A queda gradual dos níveis de estrogênio parece desempenhar um papel central nesse processo. O hormônio influencia diretamente o metabolismo, o controle do colesterol, a pressão arterial e até a maneira como o organismo armazena gordura corporal.
Com essa alteração hormonal, o corpo passa a responder de forma diferente.
Os pesquisadores observaram aumento mais frequente de colesterol elevado, alterações na glicose sanguínea e sinais metabólicos associados ao desenvolvimento de doenças cardíacas futuras.
O mais preocupante é que muitas dessas mudanças acontecem sem sintomas evidentes.
Por isso, especialistas afirmam que milhares de mulheres podem estar atravessando essa fase sem perceber que o risco cardiovascular já começou a crescer de forma importante.

Os números que fizeram os especialistas acenderem o alerta
Para avaliar a saúde cardiovascular das participantes, os cientistas utilizaram uma ferramenta conhecida como Life’s Essential 8, criada para medir fatores fundamentais ligados ao coração.
O sistema analisa alimentação, atividade física, sono, pressão arterial, colesterol, glicose, peso corporal e tabagismo.
Os resultados mostraram uma diferença clara entre mulheres antes, durante e após a menopausa.
As participantes em fase pré-menopausa apresentaram os melhores indicadores gerais. Já as mulheres em perimenopausa tiveram uma queda importante nas pontuações relacionadas à saúde cardiovascular. Entre as pós-menopáusicas, os índices pioraram ainda mais.
O dado mais preocupante apareceu quando os pesquisadores separaram o efeito natural do envelhecimento.
Mesmo levando a idade em consideração, as mulheres em perimenopausa continuavam apresentando maiores chances de desenvolver colesterol alto e alterações na glicose — dois fatores fortemente associados a infartos, AVCs e doenças metabólicas.
Outro ponto inesperado envolveu o sono.
Embora muitas participantes relatassem dificuldade para descansar, os exames indicavam que várias delas dormiam horas suficientes. Isso levou os especialistas a acreditar que o problema pode estar mais ligado à qualidade do sono do que propriamente à quantidade de horas dormidas.
Os pesquisadores também destacaram que sintomas frequentemente ignorados, como fadiga persistente, ganho de peso abdominal e alterações no descanso, podem ser sinais iniciais de mudanças metabólicas mais profundas.
Por que agir cedo pode fazer diferença no futuro
Especialistas afirmam que a perimenopausa deveria ser encarada não apenas como uma fase hormonal, mas como uma oportunidade estratégica para prevenção cardiovascular.
Segundo os médicos envolvidos no estudo, esse período concentra em poucos anos mudanças importantes no organismo: aumento da resistência à insulina, piora do colesterol, alterações na pressão arterial e mudanças no metabolismo da gordura corporal.
Por isso, exames preventivos realizados antes da menopausa podem ser decisivos.
Monitorar colesterol, glicose e pressão arterial precocemente permitiria detectar desequilíbrios quando ainda existe margem para reversão através de hábitos saudáveis.
Entre as principais recomendações aparecem atividade física regular, alimentação equilibrada e redução do sedentarismo.
Uma das dietas mais citadas pelos cardiologistas é a DASH, baseada em alimentos frescos, frutas, vegetais e baixo consumo de sódio. O modelo ajuda no controle da pressão arterial e melhora diversos indicadores metabólicos.
Os especialistas também reforçam que sintomas persistentes não devem ser tratados como algo “normal da idade”.
Em países da América Latina, onde obesidade e sedentarismo afetam milhões de pessoas, reconhecer essa fase como uma janela de prevenção pode mudar drasticamente a saúde cardiovascular feminina nas próximas décadas.
A principal mensagem do estudo é clara: esperar os sintomas aparecerem pode ser tarde demais.