Poucas coisas tiram tanto a tranquilidade de um passageiro quanto sentir o avião balançar no meio do voo. Embora seja um fenômeno comum e geralmente seguro, a turbulência ainda provoca ansiedade, enjoo e desconforto em muita gente. O que nem todos sabem é que a sensação pode variar dependendo do lugar escolhido na aeronave. Especialistas em engenharia aeronáutica explicam por quê — e o que realmente importa para voar mais tranquilo.
Onde a turbulência costuma ser menos sentida

Os assentos localizados próximos às asas do avião tendem a sofrer menos com os solavancos. A explicação está no chamado centro de massa da aeronave — região onde o peso é distribuído de forma mais equilibrada e onde o movimento é naturalmente menor.
Segundo a engenheira aeronáutica Jaqueline Mendes Queiroz, da PUC Minas, a lógica é semelhante à de uma gangorra: o ponto central quase não se move, enquanto as extremidades balançam mais.
Na prática, isso significa que quem se senta perto das asas costuma perceber menos a intensidade das oscilações. A avaliação é compartilhada por outros especialistas da área, incluindo o professor Fernando Catalano, da USP de São Carlos, e o consultor de aviação Gianfranco “Panda” Beting.
Mas existe uma nuance importante dentro da própria cabine.
Frente ou fundo: quem sente mais?
Entre passageiros posicionados à frente e atrás das asas, a tendência é que quem está no fundo da aeronave perceba mais os efeitos da turbulência. Isso ocorre porque o fluxo de ar se torna mais instável após passar pelas asas.
Ainda assim, especialistas ressaltam que, em voos comerciais, a diferença costuma ser relativamente sutil. Como o avião é uma estrutura rígida e não muito longa em comparação com as massas de ar que enfrenta, a variação de movimento ao longo da cabine não costuma ser extrema.
O papel do tamanho da aeronave
Outro fator que influencia a percepção da turbulência é o porte do avião. Aeronaves maiores — típicas de voos comerciais — possuem mais massa e, por isso, respondem de forma mais lenta às variações do ar.
É o mesmo princípio observado no cotidiano: objetos maiores e mais pesados tendem a balançar menos quando submetidos à mesma força que objetos menores.
Isso ajuda a explicar por que voos em jatos regionais ou aviões de pequeno porte costumam parecer mais “nervosos” em comparação com grandes aeronaves comerciais.
Turbulência está ficando mais comum?
Embora a turbulência sempre tenha feito parte da aviação, estudos recentes indicam aumento na frequência de episódios mais intensos, especialmente os chamados de turbulência em céu claro (CAT).
Pesquisa da Universidade de Reading, no Reino Unido, identificou crescimento de 55% nos registros de turbulência severa desse tipo entre 1979 e 2020. O fenômeno está associado às mudanças climáticas e ocorre em massas de ar instáveis que não podem ser detectadas por radar ou satélite.
Projeções citadas pelo Fórum Econômico Mundial sugerem que, até 2050, pilotos podem enfrentar o dobro de episódios severos desse tipo.
Apesar disso, especialistas reforçam um ponto essencial.
Turbulência não derruba avião — mas exige cuidado
Mesmo quando provoca sustos, a turbulência isoladamente não é capaz de derrubar uma aeronave comercial. Aviões modernos são projetados para suportar condições atmosféricas severas.
O principal risco está dentro da cabine. Durante solavancos mais fortes, passageiros sem cinto e objetos soltos podem se deslocar e causar ferimentos.
Por isso, a recomendação dos especialistas é direta: manter o cinto de segurança afivelado sempre que estiver sentado — mesmo quando o aviso luminoso estiver apagado.
Em um cenário de turbulências possivelmente mais frequentes no futuro, essa continua sendo a medida mais simples e eficaz para garantir uma viagem tranquila.
[Fonte: G1]