Para muita gente, voar é sinônimo de conforto e praticidade. Para outros, é sinônimo de mãos suadas e coração acelerado. Em 2025, um levantamento internacional voltou a chamar atenção para um detalhe que pode transformar qualquer viagem aérea em uma experiência inesquecível — e nem sempre no bom sentido: a turbulência.
Onde o avião mais sacode no planeta

Se existe um trecho aéreo capaz de testar os nervos dos passageiros, ele está na América do Sul. Pelo segundo ano consecutivo, a rota entre Mendoza, na Argentina, e Santiago, no Chile, foi considerada a mais turbulenta do mundo.
O levantamento foi feito pelo Turbli, um site especializado em monitorar a intensidade da turbulência em voos comerciais. Segundo os dados de 2025, quatro das dez rotas mais “chacoalhadas” do planeta passam pela Cordilheira dos Andes, uma das cadeias montanhosas mais imponentes do mundo.
Além do trecho Mendoza–Santiago, outras rotas sul-americanas também aparecem no ranking, como Córdoba–Santiago, Santa Cruz–Santiago e Mendoza–Salta. Curiosamente, nenhuma rota que passa pelo Brasil entrou na lista das dez mais turbulentas do ano.
O motivo é geográfico. Regiões montanhosas favorecem a formação de correntes de vento instáveis, o que aumenta significativamente as chances de turbulência. É o mesmo fenômeno que acontece em áreas próximas ao Himalaia, na Ásia.
No topo do ranking, o trecho entre Mendoza (MDZ) e Santiago (SCL) registrou uma turbulência média de 22,983 no índice edr — considerado moderado. Apesar de não atingir níveis extremos, o valor é suficiente para causar aquele famoso “sacolejo” que faz os cintos de segurança virarem prioridade.
Andes, Himalaia e o poder do vento
A presença da China no ranking também não é coincidência. Várias rotas chinesas aparecem entre as mais turbulentas, especialmente em regiões próximas ao planalto tibetano e ao Himalaia.
Trechos como Xining–Yinchuan, Chengdu–Xining e Xining–Lhasa figuram entre os dez mais instáveis. Assim como nos Andes, o relevo acidentado cria condições ideais para ventos fortes, mudanças bruscas de pressão e correntes ascendentes.
Esses fatores não representam risco estrutural para os aviões modernos, mas podem tornar o voo desconfortável — especialmente para quem tem medo de turbulência.
Nas redes sociais, é fácil encontrar vídeos de passageiros passando por verdadeiros “perrengues” ao cruzar a Cordilheira dos Andes. Copos voando, pessoas se agarrando às poltronas e aquela sensação de montanha-russa no ar fazem parte da experiência.
Mesmo assim, especialistas reforçam: turbulência é um fenômeno comum e raramente representa perigo real para a aeronave.
Como o ranking é calculado
O ranking do Turbli é elaborado desde 2022 com base em dados de duas instituições de referência mundial: a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e o Met Office, serviço meteorológico oficial do Reino Unido.
A análise envolve cerca de 10 mil rotas aéreas entre os 550 maiores aeroportos do planeta. Para cada trecho, são monitorados aproximadamente 20 voos por mês. No final do ano, é feita uma média dos dados coletados.
A intensidade da turbulência é medida por um índice chamado edr (Eddy Dissipation Rate), que considera fatores como velocidade dos ventos e a energia das correntes de ar.
A escala funciona assim:
- De 0 a 20: turbulência leve
- De 20 a 40: moderada
- De 40 a 60: forte
- De 60 a 80: severa
- De 80 a 100: extrema
Mesmo as rotas mais turbulentas de 2025 não ultrapassaram o nível moderado, o que indica que, embora desconfortáveis, elas continuam dentro de padrões considerados seguros para a aviação comercial.
O top 10 das rotas mais turbulentas
Segundo o ranking de 2025, estas foram as rotas com maior índice médio de turbulência:
- Mendoza (MDZ) → Santiago (SCL) – 22,983
- Xining (XNN) → Yinchuan (INC) – 18,935
- Chengdu (TFU) → Xining (XNN) – 18,758
- Córdoba (COR) → Santiago (SCL) – 18,643
- Santa Cruz (VVI) → Santiago (SCL) – 18,330
- Chengdu (TFU) → Lanzhou (LHW) – 18,322
- Mendoza (MDZ) → Salta (SLA) – 18,307
- Chengdu (CTU) → Yinchuan (INC) – 18,282
- Xining (XNN) → Lhasa (LXA) – 18,181
- Denver (DEN) → Jackson (JAC) – 18,180
O único trecho fora da América do Sul e da China no top 10 é o voo entre Denver e Jackson, nos Estados Unidos, que cruza regiões montanhosas das Montanhas Rochosas.
Turbulência é perigosa?
Apesar da fama, turbulência raramente causa acidentes graves. Os aviões são projetados para suportar variações intensas de vento e pressão. O maior risco costuma estar relacionado a passageiros sem cinto de segurança durante momentos de instabilidade.
Por isso, a principal recomendação das companhias aéreas é simples: manter o cinto afivelado sempre que estiver sentado, mesmo quando o aviso estiver desligado.
Para quem sofre com ansiedade em voos turbulentos, especialistas sugerem técnicas de respiração, distrações como música ou filmes, e a lembrança de que o fenômeno é mais desconfortável do que perigoso.
Um fenômeno que veio para ficar
Com as mudanças climáticas, muitos meteorologistas acreditam que a turbulência aérea pode se tornar mais frequente e intensa nas próximas décadas. O aumento de variações na atmosfera tende a criar mais instabilidades, especialmente em regiões montanhosas.
Isso não significa que voar ficará mais perigoso — mas pode ficar mais “chacoalhado”.
Enquanto isso, rotas como Mendoza–Santiago seguem sendo um verdadeiro teste de nervos para passageiros desavisados. Uma travessia curta, de menos de 200 quilômetros, mas capaz de provocar sensações que poucos esquecem.
[Fonte: G1 – Globo]