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Mesmo com a internet cortada e a repressão nas ruas, protestos voltaram a explodir no Irã

A reação internacional adiciona tensão a um cenário já instável e cheio de incertezas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando um governo tenta calar sua população, o efeito pode ser o oposto do esperado. No Irã, o bloqueio da internet e o endurecimento da repressão não reduziram a insatisfação — pelo contrário. Nos últimos dias, milhares de iranianos voltaram às ruas, desafiando o silêncio imposto pelas autoridades e mostrando que a crise interna está longe de terminar.

A revolta que não se apaga no Irã

Mesmo com a internet cortada e a repressão nas ruas, protestos voltaram a explodir no Irã
© https://x.com/NoaMagid

Mesmo sob um apagão quase total de internet, novos protestos tomaram conta de diversas cidades do Irã. A restrição ao acesso à rede foi imposta pelo governo como forma de dificultar a organização e a divulgação das manifestações, mas vídeos e relatos continuaram circulando fora do país.

Nas ruas, o clima era de tensão e desafio. Grupos de manifestantes marcharam entoando palavras de ordem contra o governo e contra a principal figura de poder iraniana. Em alguns bairros de Teerã, moradores bateram panelas e motoristas buzinaram em apoio, criando um protesto sonoro que ecoava entre os prédios.

As cenas se repetiram em diferentes regiões do Irã, não apenas na capital, mas também em cidades como Mashhad, Tabriz e até na conservadora Qom. O fato de os atos alcançarem áreas tradicionalmente mais alinhadas ao regime mostra a dimensão do descontentamento.

As manifestações já duram quase duas semanas e começaram, inicialmente, como uma reação ao aumento do custo de vida. Com o passar dos dias, porém, ganharam um tom mais político, passando a questionar diretamente o sistema de poder que governa o país.

Repressão, apagão digital e medo nas ruas iranianas

O dia anterior às novas manifestações já havia sido marcado por confrontos intensos no Irã. Houve relatos de incêndios, barricadas e ações policiais consideradas violentas por organizações de direitos humanos. Para muitos analistas, trata-se do maior ciclo de protestos desde 2022, quando a morte de Mahsa Amini sob custódia policial provocou indignação global.

Mesmo com o risco de represálias, os cidadãos iranianos voltaram a se reunir. O corte de internet, que já durava mais de 24 horas, gerou preocupação entre ativistas e opositores que vivem no exterior, pois dificultava a confirmação de informações e o contato com familiares.

A advogada iraniana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Shirin Ebadi, alertou para o risco de uma escalada ainda maior da violência. Segundo ela, o bloqueio das comunicações poderia servir de “cobertura” para ações mais duras contra os manifestantes.

Enquanto isso, organizações independentes tentavam contabilizar as consequências da repressão no Irã. Uma ONG de direitos humanos com sede na Noruega informou que ao menos 51 pessoas morreram nos primeiros 13 dias de protestos, incluindo nove crianças. O número de feridos, segundo a mesma entidade, já chega a centenas.

Quando a crise do Irã ultrapassa fronteiras

Embora o conflito seja, em essência, uma disputa interna entre o povo iraniano e o regime que governa o país, a reação internacional adicionou um novo elemento à crise.

Autoridades dos Estados Unidos se posicionaram publicamente. O presidente Donald Trump afirmou em entrevista que poderia adotar represálias caso cidadãos fossem mortos durante a repressão no Irã. A declaração ganhou repercussão global, especialmente por ocorrer logo após uma ação diplomática envolvendo a Venezuela.

Poucas horas depois, o secretário de Estado, Marco Rubio, publicou uma mensagem nas redes sociais dizendo que os Estados Unidos apoiam “o valente povo do Irã”.

Do outro lado, o governo iraniano acusou Washington e Israel de estarem por trás da instabilidade, alegando que agentes estrangeiros estariam infiltrados entre os manifestantes para provocar distúrbios e aumentar a violência.

Esse jogo de acusações mostra como a crise interna iraniana já se transformou em um tema de debate geopolítico mais amplo.

Um Irã sob pressão constante

As imagens que vêm à tona revelam um país dividido entre o desejo de mudança e o medo da repressão. Para muitos iranianos, o aumento do custo de vida foi apenas o estopim de um descontentamento mais profundo, que envolve questões políticas, sociais e culturais.

O uso de slogans diretos contra a liderança do país indica que a insatisfação não se limita a medidas econômicas, mas questiona o próprio modelo de governo iraniano. O fato de os protestos ocorrerem até em áreas tradicionalmente alinhadas ao regime reforça a ideia de que o descontentamento se espalhou por diferentes camadas da sociedade.

Ao mesmo tempo, a resposta das autoridades sugere que o governo não pretende recuar facilmente. O bloqueio de internet, as prisões e o uso da força continuam sendo as principais ferramentas para tentar conter as mobilizações.

A grande incógnita agora é o que vem a seguir: a pressão internacional será suficiente para influenciar decisões internas no Irã, ou o controle será ainda mais rígido?

O que vem depois do silêncio no Irã

Com as comunicações limitadas, muitas informações ainda chegam de forma fragmentada. O que se sabe, porém, é que o movimento não perdeu força, mesmo diante dos riscos.

Para os manifestantes, voltar às ruas é uma forma de mostrar que a insatisfação no Irã não pode ser simplesmente “desligada” junto com a internet. Para o governo, cada novo protesto representa um desafio direto à autoridade e à estabilidade do sistema.

Enquanto isso, o mundo observa. O apoio declarado de potências estrangeiras e as denúncias de violações de direitos humanos mantêm o Irã no centro das atenções internacionais.

O futuro permanece incerto, mas uma coisa já ficou clara: quando o silêncio é imposto à força, ele costuma ser quebrado por vozes ainda mais altas.

[Fonte: La nacion]

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