Durante sete meses, o mercado mundial de petróleo precisou se adaptar a uma realidade que parecia difícil de imaginar: fortes restrições em uma das rotas energéticas mais importantes do planeta.
O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel afetou o trânsito pelo Estreito de Ormuz, por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Produtores encontraram rotas alternativas, utilizaram oleodutos e modificaram operações marítimas para manter parte das exportações.
O problema é que essas soluções não impediram uma enorme redução dos estoques.
Agora, Amin Nasser, CEO da Saudi Aramco, alerta que mesmo uma reabertura completa de Ormuz não seria suficiente para devolver rapidamente o mercado à normalidade.
Mais de 1 bilhão de barris já saíram dos estoques

Antes da crise, os estoques globais de petróleo estavam próximos de 10 bilhões de barris. Desde então, segundo os números apresentados por Nasser no Energy Intelligence Forum, quase 3 bilhões de barris de fornecimento deixaram de chegar ao mercado.
Para compensar parte desse déficit, mais de 1 bilhão de barris foram retirados dos estoques mundiais.
Isso deixou o sistema energético com uma margem de segurança muito menor.
Nasser estima que restem menos de 6 bilhões de barris em estoques comerciais. O número parece elevado, mas existe uma diferença importante entre petróleo armazenado e petróleo realmente disponível para utilização imediata.
Parte desse volume precisa permanecer dentro da infraestrutura para manter oleodutos, terminais e outras instalações funcionando. Segundo o executivo, menos de 10% dos estoques contabilizados estariam efetivamente disponíveis para responder rapidamente a novas interrupções.
Reconstruir as reservas pode levar dois anos
É justamente aí que aparece o maior problema.
Mesmo que o Estreito de Ormuz fosse completamente reaberto agora, os países e empresas não poderiam simplesmente preencher seus depósitos de uma vez.
O petróleo que seria utilizado para reconstruir estoques também precisa atender ao consumo normal de combustíveis.
A estimativa apresentada pelo CEO da Aramco é que recuperar os volumes consumidos durante a crise poderia exigir até dois anos.
Isso significa que a reabertura de Ormuz representaria o início da recuperação, e não o fim da crise.
A fragilidade é particularmente importante porque os estoques funcionam como uma espécie de seguro contra emergências. Quando ocorre uma guerra, desastre natural ou interrupção de produção, eles permitem compensar temporariamente a falta de petróleo.
Com reservas menores, o mercado fica mais exposto ao próximo problema.
O G7 está liberando mais 100 milhões de barris
A situação levou os países desenvolvidos a recorrer novamente às reservas de emergência.
O G7 anunciou a liberação de 100 milhões de barris de petróleo e diesel durante quatro meses, em uma operação coordenada pela Agência Internacional de Energia.
A medida busca aliviar principalmente a pressão sobre os combustíveis refinados, um dos pontos mais delicados da atual crise.
Mas colocar petróleo armazenado no mercado resolve apenas uma parte do problema.
Cada barril utilizado agora precisará eventualmente ser reposto. Quanto mais tempo a instabilidade durar, maior será o volume necessário para reconstruir os estoques posteriormente.
O petróleo voltou a circular, mas o diesel continua sendo um problema

Existe uma aparente contradição no mercado atual.
As exportações de petróleo bruto do Golfo Pérsico, excluindo o Irã, já conseguiram retornar aproximadamente aos níveis anteriores ao conflito.
Em setembro, cerca de 16,5 milhões de barris por dia deixaram a região.
Isso foi possível porque os produtores reorganizaram completamente suas rotas. Atualmente, aproximadamente 40% dessas exportações conseguem evitar Ormuz, contra cerca de 17% antes da guerra.
Oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos ganharam importância, enquanto operações de transferência de petróleo entre navios também passaram a ser utilizadas.
O grande gargalo está nos derivados.
A capacidade mundial de refino não conseguiu compensar completamente as perdas de gasolina, diesel e outros combustíveis produzidos no Oriente Médio.
É por isso que recuperar as exportações de petróleo bruto não significa necessariamente normalizar o preço dos combustíveis.
Ormuz continua sendo praticamente insubstituível
A crise também deixou uma lição desconfortável para o sistema energético mundial.
Existem alternativas ao Estreito de Ormuz, mas nenhuma delas consegue substituir completamente essa passagem.
A região concentra alguns dos maiores produtores de petróleo do planeta, incluindo Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque e Irã.
Oleodutos terrestres conseguem desviar parte das exportações. Armazenamento internacional também ajuda. Mas transportar diariamente milhões de barris adicionais por outras rotas exige infraestrutura que simplesmente não existe em escala suficiente.
Por isso, a Aramco já estuda ampliar seus depósitos internacionais e desenvolver novas alternativas para reduzir sua dependência de um único corredor marítimo.
A reabertura de Ormuz seria apenas o começo

O cenário mostra como uma crise energética pode continuar produzindo consequências mesmo depois que sua causa imediata desaparece.
Reabrir completamente o Estreito de Ormuz permitiria recuperar rotas comerciais, reduzir custos logísticos e aumentar a segurança dos navios.
Mas o petróleo retirado dos estoques não voltaria automaticamente para os tanques.
Seria necessário produzir mais do que o mundo consome durante meses para reconstruir essa margem de segurança.
É por isso que a previsão de até dois anos é tão significativa.
O mercado não precisa apenas voltar a receber petróleo. Precisa reconstruir o enorme colchão de reservas que consumiu para sobreviver à crise.
E até que isso aconteça, qualquer nova interrupção poderá encontrar um sistema energético mundial muito menos preparado para absorver o impacto.