O México voltou ao centro das atenções internacionais após uma ofensiva de grande escala contra o narcotráfico. O que começou como uma operação cirúrgica rapidamente se transformou em um cenário de alerta elevado em várias regiões do país. Com milhares de militares mobilizados e cidades vivendo momentos de incerteza, autoridades tentam conter a escalada da violência enquanto analistas observam possíveis desdobramentos.
Mobilização massiva após operação decisiva

Após um domingo marcado por medo e tensão, o governo mexicano deslocou cerca de 10 mil militares para o oeste do país com o objetivo de restabelecer a segurança. A medida veio na esteira de uma operação que resultou na morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, líder máximo do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).
A presidente Claudia Sheinbaum afirmou que o país começa a retomar a normalidade e elogiou publicamente as forças de segurança envolvidas. Segundo ela, Exército, Guarda Nacional e Força Aérea demonstraram elevado nível de preparo e coordenação durante a ação.
Sheinbaum também reconheceu que houve troca de inteligência com autoridades dos Estados Unidos, embora tenha ressaltado que o planejamento e a execução da operação foram conduzidos por forças mexicanas.
Do outro lado da fronteira, o presidente norte-americano Donald Trump pressionou o México a ampliar o combate aos cartéis, defendendo esforços ainda mais intensos contra o narcotráfico.
Operação teve alto custo humano
O secretário de Defesa, Ricardo Trevilla Trejo, se emocionou ao comentar as perdas sofridas durante a incursão. Segundo o balanço oficial, morreram ao menos 25 integrantes da Guarda Nacional, um agente penitenciário, uma mulher e um funcionário da Procuradoria-Geral da República, além de cerca de 30 suspeitos ligados ao crime organizado.
As investigações apontam que uma das companheiras de “El Mencho” foi peça-chave para localizar o narcotraficante em Tapalpa, localidade situada a cerca de 130 km de Guadalajara.
De acordo com a inteligência mexicana — com apoio do Comando Norte dos EUA —, a mulher se reuniu com o líder do cartel na região dias antes da operação. Após sua saída do imóvel, o chefe criminoso permaneceu no local com sua equipe de segurança, permitindo o cerco das forças federais.
População relata clima de medo
Moradores das áreas afetadas descrevem um cenário de apreensão. Em Puerto Vallarta, uma das cidades impactadas por bloqueios e incêndios, a moradora identificada como Norma relatou uma “tensa calma” após os episódios de violência.
Segundo ela, houve saques e incêndios em farmácias e minimercados próximos de sua residência. Durante o domingo, serviços de transporte por aplicativo e o transporte público foram suspensos, enquanto helicópteros sobrevoavam a região.
Norma contou ainda que familiares e amigos enviaram mensagens alertando sobre explosões e colunas de fumaça. Em algumas rodovias, criminosos espalharam pregos para furar pneus de veículos, agravando o caos no trânsito.
Diante da situação, autoridades recomendaram que a população permanecesse em casa.
Especialistas temem novos desdobramentos
Para o especialista em segurança nacional Raúl Benítez Manaut, ainda é cedo para medir o impacto real da morte de “El Mencho”. Ele avalia que a sucessão dentro do CJNG pode gerar disputas internas.
Segundo o analista, organizações criminosas costumam se dividir entre alas financeiras e braços armados, e não está claro qual grupo deve prevalecer — nem se haverá negociação interna.
O professor Vicente Sánchez Munguia, do Colegio de la Frontera Norte, também não descarta a possibilidade de a violência se espalhar para outras regiões. Ele destaca que o CJNG opera em 23 estados mexicanos e funciona por meio de células locais que atuam quase como franquias.
Na avaliação do pesquisador, a autonomia crescente desses grupos aumenta o risco de novos confrontos.
Há ainda indícios de que a ofensiva contra o líder do cartel pode ter sido acelerada por informações de que a organização planejava ações violentas durante a Copa do Mundo de futebol em Guadalajara, prevista para junho.
Enquanto o governo celebra o golpe contra uma das figuras mais poderosas do narcotráfico, o país permanece em alerta. Para muitos analistas, o verdadeiro impacto da operação ainda está por se desenrolar.
[Fonte: Correio Braziliense]