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O México vive momentos de forte turbulência após a morte de El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación

A morte de um dos nomes mais temidos do crime organizado provocou reações imediatas e levantou dúvidas sobre seus efeitos reais. Especialistas alertam: o impacto pode ser bem diferente do esperado.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O anúncio da morte de uma figura central do narcotráfico rapidamente dominou o noticiário e desencadeou uma onda de tensão. Mas, por trás da aparente vitória das autoridades, analistas veem um cenário muito mais complexo. Entre interesses geopolíticos, disputas internas e a transformação do próprio mercado de drogas, o episódio pode marcar não um fim — e sim o início de uma nova fase ainda mais instável.

Operação acende o pavio de uma crise maior

A ação ocorreu durante uma ofensiva de segurança do Estado e foi seguida por uma reação imediata do crime organizado, com bloqueios de vias, incêndios e ataques que afetaram diretamente a rotina da população.

O episódio expôs uma disputa de poder que, segundo analistas, está longe de enfraquecer o narcotráfico. Pelo contrário: o cenário aponta para uma possível escalada de violência no curto prazo.

O México vive momentos de forte turbulência após a morte de El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación
© https://x.com/MemoriasPez

Em entrevista à Punto a Punto Radio (90.7), o analista internacional Damián Jacubovich afirmou que a operação precisa ser interpretada também sob uma lente política e geopolítica, especialmente diante da pressão crescente dos Estados Unidos sobre o governo mexicano.

Segundo ele, a morte do líder teria funcionado como uma demonstração de capacidade estatal e soberania, em resposta a críticas públicas do presidente Donald Trump sobre a atuação do México no combate aos cartéis.

A engrenagem do narcotráfico continua girando

Para Jacubovich, eliminar um chefe do crime não altera o funcionamento estrutural do negócio. O efeito mais comum é um rearranjo interno quase imediato.

O especialista compara a dinâmica a uma expressão conhecida nas forças de segurança: “cortar o pasto”. Quando um líder cai, outro rapidamente ocupa o espaço vazio. Na prática, isso significa que a oferta de drogas — especialmente para o mercado norte-americano — tende a permanecer estável.

Ele destaca que a morte de El Mencho não interrompe o fluxo de entorpecentes nem desestrutura o cartel de forma definitiva. Em vez disso, abre uma fase de disputa interna pelo controle de territórios, rotas e posições de comando, além de incentivar movimentos de grupos rivais.

O analista também observa que operações desse tipo costumam gerar forte repercussão midiática, mas têm efeito limitado sobre o abastecimento de substâncias como o fentanilo, hoje no centro da crise de opioides nos Estados Unidos.

O fentanilo mudou as regras do jogo

Um dos pontos mais relevantes do diagnóstico está na transformação do próprio modelo de negócio do narcotráfico. Segundo Jacubovich, o foco global se deslocou da cocaína para as drogas sintéticas — e isso altera profundamente a lógica do combate.

O fentanilo, explica ele, exige menos infraestrutura do que drogas tradicionais. Diferentemente da cocaína, que depende de grandes áreas de cultivo, a substância pode ser produzida em laboratórios relativamente pequenos e com custos muito mais baixos.

Esse fator aumenta a resiliência das organizações criminosas. Com investimento reduzido, é possível produzir centenas de milhares de doses, garantindo margens de lucro extremamente elevadas. Na prática, isso torna o mercado altamente adaptável e dificulta impactos duradouros mesmo após grandes operações policiais.

Além disso, a morte de um líder costuma gerar efeitos imediatos no terreno: represálias contra o Estado, ações para demonstrar força e uma disputa feroz dentro das próprias organizações.

Um ciclo que se repete em vários países

O especialista ressalta que o padrão observado no México não é isolado. Dinâmicas semelhantes já foram registradas em países como Brasil, Colômbia e Afeganistão, além de cidades europeias como Marselha.

Em todos esses casos, a queda de figuras centrais do crime organizado raramente provoca o colapso do mercado ilegal. O que ocorre, na maioria das vezes, é uma rápida reorganização das redes criminosas.

Na avaliação de Jacubovich, o verdadeiro motor do narcotráfico continua sendo econômico. Enquanto a atividade permanecer altamente lucrativa e ilegal, haverá sempre novos atores dispostos a ocupar os espaços deixados.

Nesse contexto, a morte de El Mencho surge mais como um golpe simbólico e político do que como uma ruptura estrutural. O fluxo de fentanilo rumo aos Estados Unidos, ao que tudo indica, deve continuar — e o México pode estar apenas entrando em mais um capítulo de uma disputa que está longe de terminar.

[Fonte: Perfil]

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