Entre comerciais milionários de refrigerantes, hambúrgueres e snacks, uma campanha destoou completamente do tom festivo do Super Bowl. Em vez de celebrar indulgências típicas do evento, ela lançou um alerta duro e emocional sobre aquilo que milhões consomem todos os dias. A peça não apenas criticou hábitos alimentares modernos, mas também provocou discussões sobre responsabilidade individual, indústria e políticas públicas.
Um anúncio que trocou refrigerante por alerta
No meio do tradicional bombardeio publicitário do maior evento esportivo dos Estados Unidos, um comercial chamou atenção por sua mensagem direta: “Alimentos processados matam”. A frase apareceu em letras fortes enquanto uma figura conhecida do esporte falava abertamente sobre obesidade, compulsão alimentar e perda familiar.
O protagonista do anúncio foi o ex-boxeador Mike Tyson. No vídeo, ele relembra o período em que chegou a pesar cerca de 156 quilos e descreve uma fase marcada por excessos alimentares e sofrimento emocional. Tyson menciona também a morte precoce da irmã, aos 25 anos, após um ataque cardíaco associado à obesidade.
As imagens finais mostram ele e o filho mordendo maçãs, enquanto a tela exibe a frase “Coma comida de verdade”. A proposta era simples e contundente: abandonar produtos ultraprocessados e voltar a alimentos considerados naturais.
A campanha foi financiada pelo MAHA Center, organização ligada ao movimento “Make America Healthy Again”. O grupo é liderado por Tony Lyons, aliado do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. Segundo Lyons, o objetivo era criar um impacto comparável ao das grandes marcas de bebidas e alimentos que tradicionalmente dominam o intervalo do Super Bowl.
O comercial direcionava o público para o site RealFood.gov, plataforma governamental que divulga diretrizes alimentares reformuladas recentemente. Entre as mudanças, houve uma revisão da tradicional pirâmide alimentar, com maior destaque para carnes, laticínios integrais e alimentos minimamente processados.
A guerra contra os ultraprocessados ganha palco nacional
Robert F. Kennedy Jr. há anos critica duramente os alimentos ultraprocessados, associando-os ao aumento de doenças crônicas nos Estados Unidos. Produtos congelados prontos, cereais açucarados, salgadinhos industrializados e diversas refeições rápidas entram nessa categoria.
De fato, pesquisas científicas vêm relacionando o consumo elevado desses itens a obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e outros problemas metabólicos. Estima-se que cerca de 70% da oferta alimentar americana seja composta por produtos ultraprocessados.
Apesar das controvérsias envolvendo Kennedy em outros temas, especialmente vacinação, sua retórica sobre alimentação tem encontrado apoio amplo. Uma pesquisa realizada pela organização KFF em parceria com o Washington Post mostrou que a maioria dos pais, independentemente de alinhamento político, considera os alimentos altamente processados uma ameaça significativa à saúde infantil.
Lyons descreveu o anúncio como um ponto de virada histórico. Além do comercial televisivo, a campanha incluiu mensagens estampadas em táxis em diversas cidades americanas. A intenção declarada era estimular mudanças imediatas na forma como as pessoas se alimentam.
Ainda assim, especialistas alertam que a abordagem pode ser problemática. A professora Lindsey Smith Taillie, da Universidade da Carolina do Norte, afirma que mensagens baseadas em vergonha corporal tendem a ser contraproducentes. Segundo ela, culpar indivíduos por suas escolhas pode reforçar comportamentos pouco saudáveis, em vez de promover mudanças sustentáveis.
Escolha individual ou problema estrutural?
O debate vai além da motivação pessoal. Diversos pesquisadores argumentam que a indústria de alimentos ultraprocessados desenvolve produtos altamente palatáveis e potencialmente viciantes, formulados para estimular o consumo contínuo.
Kelly Brownell, professor emérito da Duke University, aponta que a narrativa da “responsabilidade individual” ignora o fato de que muitos desses produtos são projetados para explorar mecanismos biológicos ligados ao prazer e à recompensa. Quando alimentos são “engenheirados para sequestrar a biologia”, como ele sugere, a discussão se torna mais complexa.
Outro ponto crítico é a realidade econômica. Os preços dos alimentos frescos têm aumentado, enquanto produtos processados continuam sendo opções mais baratas, práticas e amplamente disponíveis. Programas de assistência alimentar também enfrentaram restrições recentes, o que pode limitar o acesso a alternativas mais saudáveis.
A professora Brenda Davy, da Virginia Tech, observa que evitar completamente alimentos processados pode não ser viável para muitas famílias. “Chama atenção, mas será que as pessoas sabem como aplicar isso na vida real?”, questiona.
A campanha do Super Bowl conseguiu o que pretendia: gerar impacto e colocar o tema no centro do debate nacional. No entanto, permanece a pergunta sobre até que ponto mensagens dramáticas conseguem promover mudanças duradouras em um ambiente alimentar moldado por fatores econômicos, culturais e industriais.
No fim, o comercial não foi apenas sobre comida. Foi sobre poder, escolhas e o sistema que molda o que chega à mesa — especialmente em um país onde a praticidade muitas vezes vence a saúde.
[Fonte: New York Times]