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Ciência

Alimentos ultraprocessados: por que um novo estudo alerta que eles podem afetar todos os órgãos vitais do corpo

Uma série de artigos publicada na The Lancet aponta que o consumo de ultraprocessados está associado a riscos elevados para diversos sistemas do corpo e a pelo menos 12 doenças graves. Mesmo assim, esses produtos seguem ganhando espaço no mundo todo, impulsionados por grandes corporações e políticas públicas ainda insuficientes.
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Tempo de leitura: 3 minutos

 Os alimentos ultraprocessados se tornaram parte central da dieta moderna, especialmente em países de renda alta. Práticos, baratos e agressivamente promovidos, eles ocupam quase metade das compras alimentares de muitos lares. Agora, uma análise robusta publicada na The Lancet reacende o alerta global: a expansão desses produtos está substituindo dietas tradicionais e elevando o risco de doenças crônicas. A comunidade científica pede respostas urgentes — e coordenadas — para conter o avanço.

O que a nova série da The Lancet revela

A série, composta por três artigos, faz críticas contundentes ao papel crescente dos ultraprocessados (UPF, na sigla em inglês) nos sistemas alimentares globais. O primeiro estudo é uma revisão sistemática realizada por 43 especialistas, que analisaram 104 pesquisas publicadas entre 2016 e 2024.

Os resultados mostram que dietas dominadas por ultraprocessados tendem a apresentar excesso de calorias, açúcares e gorduras de baixa qualidade, com pouca fibra e proteínas. Em 92 dos 104 estudos, encontrou-se associação entre alto consumo de UPF e maior risco de doenças crônicas, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, câncer de cólon, depressão e até maior mortalidade por todas as causas.

Carlos Monteiro, professor de Nutrição em Saúde Pública da Universidade de São Paulo e um dos autores da série, reforça que a substituição das dietas tradicionais por produtos ultraprocessados “é um fator chave na pandemia de doenças crônicas”.

O que são, afinal, os ultraprocessados?

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© Gastronomiaycia – X

Segundo a classificação Nova — sistema criado por Monteiro e amplamente usado em estudos epidemiológicos — os ultraprocessados são produtos formulados industrialmente com ingredientes baratos, saborizantes, emulsificantes, corantes e aditivos sensoriais.

Exemplos incluem refrigerantes, salgadinhos, embutidos, biscoitos recheados, bolos industrializados e cereais açucarados. Eles são projetados para serem hiperpalatáveis, práticos e, muitas vezes, mais baratos do que alimentos frescos — características que os tornam altamente competitivos no mercado global.

Contudo, sua composição rica em calorias e pobre em micronutrientes essenciais tem alimentado preocupações sobre impactos a longo prazo na saúde humana.

Os críticos: evidência suficiente ou conclusões precipitadas?

Apesar dos alertas, o conceito de ultraprocessados e o peso atribuído ao processamento na saúde humana ainda geram debate.

O portal SMC Espanha destaca a posição de Jordan Beaumont, professor de Alimentação e Nutrição na Sheffield Hallam University, que considera “simplista” atribuir ao processamento o papel central nos efeitos negativos da dieta. Para ele, a evidência usada na série da The Lancet ainda é limitada, baseada sobretudo em estudos observacionais.

Jules Griffin, diretor do Instituto Rowett da Universidade de Aberdeen, também pondera que nem todo ultraprocessado é, por definição, prejudicial — citando como exemplo o pão enriquecido com ácido fólico. Ainda assim, reconhece a urgência em compreender como o processamento em larga escala afeta a saúde pública.

Um consumo que não para de crescer

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© Freepik

A série destaca o avanço expressivo dos ultraprocessados no mundo. Em muitos países de alta renda, esses produtos representam cerca de 50% das compras de alimentos. A tendência se espalha rapidamente por países de renda média e baixa.

Dados citados pela pesquisa mostram aumentos acentuados na proporção calórica proveniente de UPF em três décadas:

  • Espanha: de 11% para 31,7%

  • México: de 10% para 23%

  • Argentina: de 19% para 29%

Mesmo com o crescimento de políticas que tentam desestimular o consumo — como rótulos de advertência, limites de publicidade e reformulações —, as medidas ainda são consideradas insuficientes.

O que especialistas recomendam

Entre as ações propostas pelos autores da série estão:

  • inclusão obrigatória, no rótulo, de informações que indiquem se o produto é ultraprocessado;

  • restrições à publicidade, sobretudo para crianças;

  • aumento de impostos sobre produtos não saudáveis;

  • limitação do espaço de exposição nos supermercados;

  • proibição de venda em escolas e unidades de saúde;

  • ampliação da oferta e do acesso a alimentos nutritivos.

Para a The Lancet, essas ações só serão eficazes se acompanhadas por marcos regulatórios capazes de limitar o poder político das corporações que dominam o setor. Monteiro afirma que os lucros dos UPF são impulsionados por ingredientes extremamente baratos — como açúcares, amidos, óleos e proteínas isoladas — que permitem preços competitivos e alta margem de lucro.

Uma resposta global necessária

Segundo a revista, esse modelo de negócios incentiva práticas corporativas que “bloqueiam tentativas de regulação” e moldam sistemas alimentares inteiros. Por isso, os autores defendem uma resposta internacional, articulada e bem financiada, capaz de reduzir a influência da indústria e de proteger a saúde pública.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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