Os alimentos ultraprocessados se tornaram parte central da dieta moderna, especialmente em países de renda alta. Práticos, baratos e agressivamente promovidos, eles ocupam quase metade das compras alimentares de muitos lares. Agora, uma análise robusta publicada na The Lancet reacende o alerta global: a expansão desses produtos está substituindo dietas tradicionais e elevando o risco de doenças crônicas. A comunidade científica pede respostas urgentes — e coordenadas — para conter o avanço.
O que a nova série da The Lancet revela
A série, composta por três artigos, faz críticas contundentes ao papel crescente dos ultraprocessados (UPF, na sigla em inglês) nos sistemas alimentares globais. O primeiro estudo é uma revisão sistemática realizada por 43 especialistas, que analisaram 104 pesquisas publicadas entre 2016 e 2024.
Os resultados mostram que dietas dominadas por ultraprocessados tendem a apresentar excesso de calorias, açúcares e gorduras de baixa qualidade, com pouca fibra e proteínas. Em 92 dos 104 estudos, encontrou-se associação entre alto consumo de UPF e maior risco de doenças crônicas, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, câncer de cólon, depressão e até maior mortalidade por todas as causas.
Carlos Monteiro, professor de Nutrição em Saúde Pública da Universidade de São Paulo e um dos autores da série, reforça que a substituição das dietas tradicionais por produtos ultraprocessados “é um fator chave na pandemia de doenças crônicas”.
O que são, afinal, os ultraprocessados?

Segundo a classificação Nova — sistema criado por Monteiro e amplamente usado em estudos epidemiológicos — os ultraprocessados são produtos formulados industrialmente com ingredientes baratos, saborizantes, emulsificantes, corantes e aditivos sensoriais.
Exemplos incluem refrigerantes, salgadinhos, embutidos, biscoitos recheados, bolos industrializados e cereais açucarados. Eles são projetados para serem hiperpalatáveis, práticos e, muitas vezes, mais baratos do que alimentos frescos — características que os tornam altamente competitivos no mercado global.
Contudo, sua composição rica em calorias e pobre em micronutrientes essenciais tem alimentado preocupações sobre impactos a longo prazo na saúde humana.
Os críticos: evidência suficiente ou conclusões precipitadas?
Apesar dos alertas, o conceito de ultraprocessados e o peso atribuído ao processamento na saúde humana ainda geram debate.
O portal SMC Espanha destaca a posição de Jordan Beaumont, professor de Alimentação e Nutrição na Sheffield Hallam University, que considera “simplista” atribuir ao processamento o papel central nos efeitos negativos da dieta. Para ele, a evidência usada na série da The Lancet ainda é limitada, baseada sobretudo em estudos observacionais.
Jules Griffin, diretor do Instituto Rowett da Universidade de Aberdeen, também pondera que nem todo ultraprocessado é, por definição, prejudicial — citando como exemplo o pão enriquecido com ácido fólico. Ainda assim, reconhece a urgência em compreender como o processamento em larga escala afeta a saúde pública.
Um consumo que não para de crescer

A série destaca o avanço expressivo dos ultraprocessados no mundo. Em muitos países de alta renda, esses produtos representam cerca de 50% das compras de alimentos. A tendência se espalha rapidamente por países de renda média e baixa.
Dados citados pela pesquisa mostram aumentos acentuados na proporção calórica proveniente de UPF em três décadas:
- Espanha: de 11% para 31,7%
- México: de 10% para 23%
- Argentina: de 19% para 29%
Mesmo com o crescimento de políticas que tentam desestimular o consumo — como rótulos de advertência, limites de publicidade e reformulações —, as medidas ainda são consideradas insuficientes.
O que especialistas recomendam
Entre as ações propostas pelos autores da série estão:
- inclusão obrigatória, no rótulo, de informações que indiquem se o produto é ultraprocessado;
- restrições à publicidade, sobretudo para crianças;
- aumento de impostos sobre produtos não saudáveis;
- limitação do espaço de exposição nos supermercados;
- proibição de venda em escolas e unidades de saúde;
- ampliação da oferta e do acesso a alimentos nutritivos.
Para a The Lancet, essas ações só serão eficazes se acompanhadas por marcos regulatórios capazes de limitar o poder político das corporações que dominam o setor. Monteiro afirma que os lucros dos UPF são impulsionados por ingredientes extremamente baratos — como açúcares, amidos, óleos e proteínas isoladas — que permitem preços competitivos e alta margem de lucro.
Uma resposta global necessária
Segundo a revista, esse modelo de negócios incentiva práticas corporativas que “bloqueiam tentativas de regulação” e moldam sistemas alimentares inteiros. Por isso, os autores defendem uma resposta internacional, articulada e bem financiada, capaz de reduzir a influência da indústria e de proteger a saúde pública.
[ Fonte: Wired ]