A busca por um tratamento eficaz contra o Alzheimer é uma corrida científica que atravessa décadas e fronteiras.
Enquanto a maioria dos medicamentos atuais apenas desacelera o avanço da doença, um grupo de pesquisadores brasileiros pode ter dado um passo decisivo.
A molécula criada pela Universidade Federal do ABC (UFABC) apresentou resultados que vão além das expectativas, reacendendo a esperança de que seja possível não apenas conter, mas também reverter parte do dano cerebral causado pela enfermidade.
Um avanço que nasceu onde ninguém esperava
O Alzheimer é responsável por cerca de 70% dos casos de demência no mundo e ainda não tem cura.
Nesse cenário, o trabalho liderado pela professora Giselle Cerchiaro, da UFABC, chamou atenção internacional ao desenvolver moléculas capazes de se ligar ao excesso de cobre presente nas placas beta-amiloides, promovendo sua degradação.
Essas placas — formadas por fragmentos de proteínas que se acumulam entre os neurônios — estão associadas à inflamação cerebral e à perda de memória.
Os testes em culturas celulares e modelos animais mostraram melhorias notáveis em memória, orientação espacial e aprendizado, além da reversão de alterações bioquímicas típicas do Alzheimer.
O estudo foi publicado na revista ACS Chemical Neuroscience.
O papel do cobre no declínio cognitivo
Pesquisas anteriores já apontavam que o desequilíbrio do cobre no cérebro pode acelerar a formação das placas beta-amiloides.
Mutação genética ou falhas nas enzimas reguladoras fazem com que o metal se acumule, tornando as placas mais estáveis e resistentes à eliminação.
A equipe da UFABC criou dez compostos capazes de atravessar a barreira hematoencefálica — algo essencial para qualquer medicamento que atue no sistema nervoso central.
Três moléculas foram testadas em ratos, e apenas uma apresentou o melhor perfil de eficácia e segurança.
De acordo com Cerchiaro, “regular o equilíbrio do cobre é uma das estratégias mais promissoras para tratar o Alzheimer”.
A molécula atua como quelante, capturando o excesso de cobre e, ao mesmo tempo, reduzindo a neuroinflamação e o estresse oxidativo.

Resultados que despertam otimismo
Nos testes com animais, os resultados foram animadores.
Os ratos tratados tiveram melhor desempenho em tarefas de memória e aprendizado, além de apresentarem níveis mais equilibrados de cobre no hipocampo, região crucial para o armazenamento de lembranças.
Não foram observados efeitos tóxicos nem danos celulares, o que indica alto potencial de segurança.
A pesquisa foi conduzida com apoio de doutorandos e mestres, e contou com a colaboração do grupo do professor Kleber Thiago de Oliveira, da UFSCar, responsável pela síntese de um dos compostos.
Um futuro promissor — e brasileiro
O Alzheimer é multifatorial e afeta mais de 50 milhões de pessoas no mundo.
Frente à escassez de tratamentos realmente eficazes, o novo composto brasileiro surge como uma alternativa simples, acessível e potencialmente transformadora.
A UFABC já entrou com o pedido de patente e busca parceiros para iniciar os ensaios clínicos em humanos.
Se os resultados forem confirmados, a molécula poderá representar um dos avanços mais importantes das últimas décadas — e colocar a ciência latino-americana no centro da luta global contra o Alzheimer.