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Ciência

Morar perto de usinas nucleares está associado a maior mortalidade por câncer nos EUA, aponta estudo — mas relação ainda não é conclusiva

Uma análise nacional identificou taxas mais altas de mortalidade por câncer em condados próximos a usinas nucleares nos Estados Unidos. O estudo, liderado por pesquisadores de Harvard, reacende o debate sobre os riscos à saúde em meio à expansão da energia nuclear — embora os autores alertem que os dados não provam causa e efeito.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A energia nuclear voltou ao centro das discussões globais como alternativa de baixo carbono diante da crise climática. Nos Estados Unidos, propostas para ampliar a capacidade nuclear ganharam força nos últimos anos. Mas um novo estudo científico adiciona uma camada de complexidade ao debate: morar perto de usinas nucleares pode estar associado a maiores taxas de mortalidade por câncer. A conclusão, porém, exige cautela.

O que o estudo encontrou

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Harvard T.H. Chan School of Public Health e publicada na revista científica Nature Communications. O trabalho analisou dados entre 2000 e 2018, combinando informações sobre localização e operação de usinas nucleares com estatísticas de mortalidade por câncer em nível de condado.

Os pesquisadores utilizaram dados da U.S. Energy Information Administration e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Modelos estatísticos avançados foram aplicados para considerar variáveis como renda média, composição racial, índice de massa corporal, prevalência de tabagismo e proximidade de hospitais.

Mesmo após esses ajustes, os condados localizados mais próximos de usinas nucleares operacionais apresentaram taxas mais altas de mortalidade por câncer em comparação com regiões mais distantes.

Segundo as estimativas do estudo, cerca de 115 mil mortes por câncer no período analisado — aproximadamente 6.400 por ano — estariam associadas à proximidade com usinas nucleares.

Associação não significa causa

Apesar dos números expressivos, os próprios autores reforçam que o estudo não estabelece causalidade. Ou seja, não é possível afirmar que viver perto de uma usina nuclear cause câncer.

O professor Petros Koutrakis, especialista em saúde ambiental de Harvard e autor sênior do estudo, afirmou em comunicado que os resultados sugerem um “risco mensurável” que diminui com a distância. No entanto, ele enfatizou a necessidade de novas pesquisas para compreender melhor possíveis mecanismos de exposição e efeitos ao longo do tempo.

Entre as questões em aberto estão: como ocorreria a exposição? Quais tipos específicos de câncer estariam envolvidos? Quanto tempo seria necessário para que eventuais efeitos se manifestassem?

O momento político da energia nuclear

O estudo surge em um contexto de renovado entusiasmo pela energia nuclear nos Estados Unidos.

Em 2024, o então presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva propondo reformas na Nuclear Regulatory Commission, agência responsável por supervisionar o setor. O plano previa expandir a capacidade nuclear do país de cerca de 100 gigawatts em 2024 para 400 gigawatts até 2050.

A justificativa inclui segurança energética e suporte a setores de alta demanda elétrica, como inteligência artificial e computação quântica.

O apoio à energia nuclear, porém, não se limita a um espectro político específico. Setores de centro e centro-esquerda também defendem a redução de barreiras regulatórias para fontes limpas, incluindo nuclear, como estratégia para enfrentar a crise climática. Em 2022, por exemplo, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, evitou o fechamento da última usina nuclear do estado.

Um debate que exige equilíbrio

A energia nuclear é frequentemente apontada como fonte de baixa emissão de carbono durante a geração de eletricidade. Ao mesmo tempo, questões relacionadas à segurança, resíduos radioativos e impactos à saúde pública seguem sendo debatidas há décadas.

O novo estudo não encerra a discussão, mas amplia a necessidade de monitoramento epidemiológico rigoroso, transparência regulatória e investigações independentes.

Para comunidades que vivem próximas a usinas, os resultados podem gerar preocupação. Para formuladores de políticas, representam um lembrete de que a expansão energética deve caminhar junto com avaliação contínua de riscos.

A transição energética é um desafio urgente. Mas, como indica a pesquisa, entender completamente os possíveis impactos à saúde é parte essencial dessa equação.

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