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Ciência

Não são fantasmas: um estudo revela como sons invisíveis podem provocar medo, desconforto e até a sensação de “presença”

Uma pesquisa recente sugere que experiências consideradas paranormais podem ter uma explicação bem mais terrena. Sons de baixa frequência, imperceptíveis ao ouvido humano, seriam capazes de alterar o humor e provocar sensações físicas que muitos interpretam como algo sobrenatural.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quem nunca entrou em um lugar escuro e teve a sensação de não estar sozinho? Esse tipo de experiência é mais comum do que parece — e, segundo a ciência, pode ter uma origem inesperada. Um novo estudo conduzido por pesquisadores no Canadá indica que sons de baixa frequência, conhecidos como infrassom, podem estar por trás de muitas dessas sensações inquietantes.

O que é o infrassom — e por que ele afeta o corpo

O infrassom é definido como qualquer som com frequência igual ou inferior a 20 hertz, ou seja, abaixo do limite de audição humana. Mesmo que não possamos ouvi-lo, isso não significa que ele passe despercebido pelo corpo.

Em níveis mais intensos, esse tipo de som pode ser sentido como vibração ou pressão. E é justamente essa característica que chama a atenção de cientistas há anos: muitas pessoas relatam desconforto, ansiedade ou até medo em ambientes onde há presença de infrassom, mesmo sem saber que ele está ali.

O experimento que mediu o “medo invisível”

A pesquisa, publicada na revista Frontiers in Behavioral Neuroscience, foi conduzida por uma equipe liderada por Rodney Schmaltz, professor de psicologia da MacEwan University.

No experimento, 36 voluntários participaram de uma sessão em laboratório. Eles foram colocados em uma sala onde ouviam músicas relaxantes ou perturbadoras. Metade do grupo, porém, foi exposta secretamente a um som de 18 hertz — um infrassom emitido por subwoofers escondidos.

Antes e depois da experiência, os pesquisadores mediram os níveis de cortisol (hormônio associado ao estresse) por meio de amostras de saliva, além de avaliar o estado emocional dos participantes.

O resultado foi consistente: aqueles expostos ao infrassom relataram maior irritação, desinteresse e perceberam as músicas como mais tristes. Além disso, apresentaram níveis mais elevados de cortisol.

O detalhe mais inquietante: ninguém percebeu o som

Um dos pontos mais interessantes do estudo é que os efeitos não dependeram da percepção consciente. Quando perguntados se achavam que haviam sido expostos ao som, os participantes não acertaram mais do que ao acaso.

Ou seja: o corpo reagiu ao estímulo sem que a mente tivesse consciência dele.

Esse dado reforça a ideia de que o infrassom pode provocar sensações físicas e emocionais difíceis de explicar — exatamente o tipo de experiência que muitas pessoas associam a fenômenos paranormais.

Fantasmas ou sugestão? A ciência tenta responder

Pesquisas anteriores já indicavam essa possibilidade. Em 2002, um experimento conduzido pelo psicólogo Richard Wiseman expôs centenas de pessoas a músicas com infrassom embutido durante um concerto em Londres. O resultado: os participantes tiveram 22% mais chances de relatar sensações incomuns, como arrepio ou um “frio no estômago”.

Além disso, pesquisas de opinião mostram que a crença no paranormal é amplamente difundida. Um levantamento da YouGov apontou que cerca de 60% dos americanos acreditam já ter vivido alguma experiência desse tipo, sendo a mais comum a sensação de uma presença invisível.

Ainda assim, os cientistas são cautelosos. O próprio Schmaltz destaca que o infrassom não faz alguém “ver fantasmas”. O que ele pode fazer é gerar desconforto físico ou emocional — e cabe ao cérebro interpretar essa sensação.

Um fenômeno comum no dia a dia

O mais surpreendente é que o infrassom não está restrito a lugares “assombrados”. Ele pode ser gerado por diversas fontes cotidianas: sistemas de ventilação, trânsito intenso, eletrodomésticos grandes e até equipamentos industriais.

Isso levanta uma questão importante: se sons inaudíveis podem afetar nosso humor e níveis de estresse sem que percebamos, qual é o impacto disso no nosso dia a dia?

Entre ciência e mistério

Os pesquisadores reconhecem que o estudo ainda tem limitações, como o número reduzido de participantes. Por isso, defendem novas investigações com amostras maiores e exposições mais prolongadas, que simulem melhor ambientes reais.

Enquanto isso, a hipótese do infrassom surge como mais uma peça no quebra-cabeça das experiências consideradas paranormais. Não substitui fatores como sugestão, expectativa ou erro de percepção — mas ajuda a explicar por que certos lugares parecem, de fato, “estranhos”.

No fim das contas, talvez aquela sensação desconfortável em um ambiente silencioso não seja exatamente coisa da sua cabeça. Mas também não precisa ser algo de outro mundo.

 

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