A inteligência artificial aplicada à navegação na internet foi vendida como o próximo passo da experiência online: buscas mais rápidas, respostas sob medida e integração fluida. Porém, por trás dessa promessa se esconde uma ameaça crescente à privacidade. Uma pesquisa conduzida por especialistas da Europa mostrou que esses sistemas acessam áreas delicadas da vida digital — um alerta que reacende o debate sobre limites éticos e legais na era da IA.
O estudo que expôs os riscos
Pesquisadores do Reino Unido e da Itália analisaram dez dos navegadores de IA mais utilizados, incluindo ferramentas como ChatGPT da OpenAI, Copilot da Microsoft e Merlin AI. O resultado foi claro: com exceção do Perplexity AI, todos demonstraram sinais de coletar informações altamente confidenciais, desde registros bancários até históricos de saúde.
Segundo a autora principal do estudo, Anna Maria Mandalari, essas plataformas operam com um acesso inédito ao comportamento digital, alcançando até espaços que deveriam ser impenetráveis, como sistemas de saúde ou portais fiscais.
Do público ao privado: nada escapa
O levantamento mostrou que diversos navegadores transmitiam aos seus servidores todo o conteúdo das páginas visitadas. Isso incluía números de identificação social, comprovantes acadêmicos e até dados de pagamento inseridos em tempo real.
Ferramentas como Merlin e Sider chegaram a registrar atividades em sites privados. No caso do Copilot, foi identificado que os históricos de conversas eram armazenados em segundo plano, persistindo entre diferentes sessões de uso.

Personalização ou vigilância?
Os pesquisadores também notaram que esses navegadores inferiam idade, gênero, renda e interesses dos usuários para moldar respostas e conteúdos. Embora essa personalização torne a experiência aparentemente mais eficiente, levanta sérias dúvidas sobre como essas informações são arquivadas e repassadas a terceiros.
Em alguns casos, os dados eram compartilhados com serviços como o Google Analytics, ampliando o risco de rastreamento publicitário. A conclusão é direta: o usuário nunca tem plena consciência do destino final de suas informações.
O desafio da lei e da ética
O relatório indica que essas práticas podem ferir legislações de privacidade nos Estados Unidos e, especialmente, as normas rígidas da União Europeia sob o RGPD. Apesar de políticas de privacidade reconhecerem a coleta de dados, a justificativa apresentada costuma ser vaga: melhorar a experiência do usuário.
Para os especialistas, o dilema é inevitável: a comodidade oferecida pela inteligência artificial não pode custar o controle sobre dados pessoais. A grande questão é se as leis conseguirão acompanhar a velocidade desse avanço tecnológico.
Fonte: Gizmodo ES