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Nepal decide abandonar plano antigo para limpar o Monte Everest após uma década sem resultados

Após mais de dez anos, o Nepal reconheceu que sua principal política para conter o lixo no Monte Everest fracassou. O sistema que obrigava escaladores a descer com resíduos não reduziu a poluição em áreas críticas. Agora, o governo aposta em um novo plano de limpeza e fiscalização mais rigorosa.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O Monte Everest, o ponto mais alto do planeta, também se tornou um símbolo do impacto humano em ambientes extremos. Desde a explosão das expedições comerciais nos anos 1980, toneladas de lixo se acumulam ao longo da montanha. Diante da persistência do problema, autoridades do Nepal anunciaram o fim de um programa criado em 2014 e a adoção de uma nova estratégia para enfrentar a poluição no Everest.

Um plano que não funcionou como o esperado

Desde 2014, o Nepal exigia que cada escalador levasse de volta ao menos 8 quilos de lixo da montanha. Caso contrário, perderia um depósito de US$ 4 mil pago antes da expedição. A medida pretendia reduzir o acúmulo de resíduos, especialmente no Monte Everest, onde o lixo se concentra há décadas.

No entanto, segundo Himal Gautam, diretor do departamento de turismo do país, o problema “não desapareceu”. Em declarações à BBC, ele afirmou que o sistema se transformou em um peso administrativo, difícil de controlar e pouco eficaz na prática. Diante disso, o governo decidiu abandonar o modelo.

Lixo que continua preso nas maiores altitudes

Embora existam várias iniciativas de limpeza no Everest, os resultados são desiguais. Programas coordenados pelo Sagarmatha Pollution Control Committee (SPCC) conseguiram avanços importantes. Na temporada de escaladas da primavera de 2024, por exemplo, foram recolhidas cerca de 85 toneladas de resíduos no campo base, enquanto expedições privadas trouxeram outras 10 toneladas de acampamentos mais altos, segundo o jornal The Kathmandu Post.

O maior desafio continua sendo o Colo Sul, último acampamento antes do cume. Estima-se que entre 40 e 50 toneladas de lixo ainda estejam espalhadas nessa região extrema. Um dos problemas do antigo sistema é que os escaladores tendiam a recolher resíduos apenas das áreas mais baixas, deixando intactas as zonas mais perigosas e difíceis de acessar.

Além disso, não havia obrigação de retirar mais lixo do que aquele produzido durante a própria escalada. De acordo com o SPCC, um alpinista pode gerar até 12 quilos de resíduos ao longo da expedição.

Falta de fiscalização e impactos ambientais

Outro ponto crítico é a ausência de monitoramento nas maiores altitudes. Acima de um posto de controle situado depois da temida Cascata de Gelo do Khumbu, praticamente não há fiscalização sobre o comportamento dos escaladores. Isso abriu brechas para o descarte irregular de resíduos em locais sensíveis.

Com o passar dos anos, o lixo acumulado contaminou fontes de água, introduziu microplásticos e substâncias tóxicas no ambiente e criou riscos biológicos, especialmente pelo descarte de dejetos humanos. O impacto afeta tanto comunidades locais quanto montanhistas.

Uma nova abordagem: taxas e fiscalização permanente

No lugar do depósito reembolsável, o governo planeja cobrar uma taxa fixa e não reembolsável — também em torno de US$ 4 mil — que será destinada a um fundo permanente de conservação e bem-estar das montanhas. Os recursos financiarão centros de coleta e processamento de resíduos no campo base ou em áreas próximas, além da presença de fiscais em pontos mais elevados da rota.

Essa mudança faz parte de um novo plano de ação de cinco anos anunciado pelo Ministério da Cultura, Turismo e Aviação Civil do Nepal. Entre as propostas está, inclusive, um estudo de viabilidade para a possível realocação do Campo Base do Everest, diante da pressão ambiental crescente.

Um desafio que só tende a crescer

Ao abandonar um programa considerado ineficaz, o Nepal sinaliza que reconhece a gravidade do problema — mas também que não desistiu de proteger o Everest. O número de escaladores continua alto, e a montanha segue atraindo aventureiros de todo o mundo.

Limpar o Everest será cada vez mais difícil, mas também mais urgente. O fracasso do antigo plano deixa claro que soluções simbólicas não bastam. Para preservar o topo do planeta, será necessário combinar fiscalização real, infraestrutura adequada e uma mudança profunda na forma como o turismo de altitude é conduzido.

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