Pular para o conteúdo
Ciência

Neurônios que funcionam como um “interruptor da ansiedade”: o experimento que desligou o transtorno em ratos e pode revolucionar tratamentos no futuro

Cientistas espanhóis identificaram, pela primeira vez, um microcircuito neuronal específico na amígdala capaz de acionar e também desligar comportamentos ligados à ansiedade. Ao reequilibrar a atividade de um grupo especial de neurônios, pesquisadores conseguiram reverter sintomas em ratos transgênicos — um avanço que abre caminho para terapias mais precisas e menos invasivas.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A ansiedade é um dos transtornos psiquiátricos mais prevalentes no mundo, mas suas origens biológicas exatas permaneciam um enigma. Apesar do papel da amígdala ser conhecido desde os anos 1990, faltava identificar quais neurônios e circuitos, dentro dessa pequena estrutura do cérebro, estavam diretamente envolvidos no problema. Agora, um estudo publicado na revista iScience oferece uma resposta inédita — e promissora.

A amígdala sob nova luz: um grupo específico de neurônios como peça-chave

Segredo Do Cérebro2
© FreePik

A amígdala, estrutura em forma de amêndoa localizada nos lobos temporais, sempre foi vista como o “centro emocional” ligado ao medo e à ansiedade. Mas compreender como ela produz esses estados exigia uma resolução muito mais fina: identificar quais neurônios estão no comando e como interagem entre si.

Pesquisadores do Instituto de Neurociências de Alicante (IN), na Espanha, liderados por Juan Lerma, conseguiram mapear uma população singular de neurônios chamada células de disparo regular. Esses neurônios são caracterizados pelo ritmo elétrico constante e imediato, diferente das células de disparo tardio, que fazem uma pausa antes de gerar impulsos.

Segundo os autores, quando esse grupo de células regulares fica hiperativo, domina o circuito e desencadeia comportamentos patológicos de ansiedade. Foi essa descoberta que permitiu aos cientistas testar uma intervenção inédita.

O experimento decisivo: “desligando” a ansiedade em ratos transgênicos

A equipe utilizou uma linhagem de ratos transgênicos criada em 2015 no mesmo instituto, que carrega cópias extras do gene Grik4 — a mesma alteração observada naturalmente em alguns humanos com autismo e esquizofrenia. Essa modificação gera superprodução da proteína GluK4, tornando os neurônios da amígdala hiperexcitáveis.

Nos cérebros desses animais, os sinais enviados para as células de disparo regular eram até 182% mais intensos, o que resultava em comportamentos de ansiedade e déficits sociais.

A solução encontrada pelos pesquisadores foi surpreendentemente simples: remover geneticamente as cópias nativas do gene, deixando apenas as extras. Isso normalizou a quantidade de GluK4 na amígdala basolateral e reduziu o excesso de sinalização para as células de disparo regular.

De acordo com o primeiro autor do estudo, Álvaro García, esse ajuste pontual — restrito a uma região muito pequena do cérebro — foi suficiente para reverter completamente os comportamentos ligados à ansiedade.

O circuito que mantém a ansiedade sob controle

A explicação do mecanismo é elegante. As células de disparo regular inibem vigorosamente as células tardias, que por sua vez controlam os neurônios da amígdala centromedial, responsáveis por gerar respostas de ansiedade.

Em condições normais:

  • células regulares disparam moderadamente 
  • células tardias permanecem ativas 
  • a amígdala centromedial é mantida sob controle 

No entanto, quando as células regulares se tornam hiperativas, elas abafam totalmente as células tardias, liberando o caminho para que a amígdala centromedial gere respostas intensificadas — ansiedade elevada, comportamento defensivo, hipervigilância.

Ao restaurar o equilíbrio desse circuito, os cientistas conseguiram neutralizar o comportamento ansioso nos ratos.

Implicações profundas: novas terapias, menos efeitos colaterais

A descoberta é particularmente promissora porque aponta para um alvo muito específico dentro do cérebro. Hoje, medicamentos contra ansiedade e depressão agem de maneira ampla, modulando neurotransmissores como serotonina e noradrenalina em toda a rede neural — o que leva a efeitos colaterais frequentes.

Ao identificar:

  • uma população neuronal exata 
  • um gene envolvido (Grik4) 
  • um receptor específico (GluK4) 
  • e um circuito cerebral delimitado 

os pesquisadores abrem caminho para tratamentos de precisão.

Fármacos capazes de modular seletivamente a atividade das células de disparo regular podem, no futuro, atuar apenas na parte disfuncional do circuito. Técnicas de neuromodulação, como estimulação transcraniana profunda e direcionada, também podem se beneficiar dessa descoberta.

Uma mudança no modo de entender ansiedade e depressão

Depressão E Ansiedade
© FreePik

O estudo reforça uma ideia emergente na neurociência contemporânea: transtornos psiquiátricos nem sempre são problemas globais de grandes regiões do cérebro. Muitas vezes, são descompassos locais, operando em pequenos grupos de neurônios com poder desproporcional.

Essa mudança de paradigma — do macro para o micro — pode redefinir o desenvolvimento de tratamentos nas próximas décadas.

A ansiedade, ao que tudo indica, pode ter um “interruptor” biológico. E os cientistas acabam de descobrir onde ele está.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados