A relação entre inteligência artificial e mercado de trabalho acaba de ganhar um elemento inesperado: a religião.
A recente encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV, está provocando discussões entre juristas, especialistas em recursos humanos e empresas de tecnologia. O motivo é simples: o documento apresenta críticas contundentes ao uso indiscriminado da inteligência artificial e pode servir como base para trabalhadores que desejam solicitar isenções religiosas para não utilizar essas ferramentas em suas atividades profissionais.
Embora a ideia possa parecer improvável, um caso concreto já aconteceu nos Estados Unidos.
A engenheira que conseguiu uma exceção
Segundo reportagem do Business Insider, Erin Maus, engenheira de software da Carolina do Norte e integrante da tradição religiosa unitarista universalista, solicitou formalmente à empresa onde trabalha uma acomodação que a dispensasse do uso obrigatório de ferramentas de inteligência artificial.
Ela argumentou que a utilização da tecnologia entrava em conflito com suas convicções éticas e espirituais, especialmente devido a preocupações ambientais e aos impactos sociais associados ao desenvolvimento da IA.
O pedido foi aprovado em maio.
Desde então, Maus voltou a escrever e revisar código manualmente, sem recorrer aos assistentes de programação baseados em inteligência artificial que se tornaram comuns no setor tecnológico.
“Estou escrevendo meu código e revisando meu código manualmente. Parece estranho dizer isso hoje, mas era assim que todos trabalhavam há apenas alguns anos”, afirmou.
O alerta do Papa Leão XIV
A discussão ganhou nova força após a publicação da encíclica Magnifica Humanitas, um documento de aproximadamente 43 mil palavras dedicado aos impactos da inteligência artificial na sociedade.
No texto, o pontífice afirma que a humanidade enfrenta novas formas de desumanização provocadas pelo avanço tecnológico.
Segundo o Papa, existe o risco de reduzir a pessoa humana a dados, métricas de desempenho e padrões algorítmicos.
“O mistério da pessoa não pode ser reduzido a dados e performance”, escreveu.
O documento também critica aquilo que chama de “idolatria do lucro”, alertando que o desenvolvimento tecnológico não deve sacrificar a dignidade humana em nome da eficiência econômica.
Uma adoção mais lenta da IA não significa rejeitar o progresso
Um dos trechos mais debatidos da encíclica afirma que reduzir o ritmo de adoção da inteligência artificial não representa uma oposição ao progresso.
Para o Papa, uma implementação mais cautelosa da tecnologia seria uma forma de exercer responsabilidade social e cuidado com a humanidade.
Essa passagem chamou atenção de especialistas em direito do trabalho porque pode ser interpretada como um posicionamento religioso legítimo sobre a relação entre seres humanos e sistemas de IA.
Em determinadas circunstâncias, isso poderia servir como base para pedidos de acomodação religiosa.
O que diz a legislação americana
Nos Estados Unidos, a legislação trabalhista prevê que empregadores devem oferecer acomodações razoáveis quando uma exigência profissional entra em conflito com crenças religiosas sinceramente mantidas pelo trabalhador.
A regra faz parte do Título VII da Lei dos Direitos Civis de 1964.
Segundo Jonathan Segal, advogado especializado em relações trabalhistas, é provável que alguns funcionários utilizem a encíclica como fundamento para argumentar que o uso obrigatório de inteligência artificial viola suas convicções religiosas.
Quando uma crença é considerada genuína e não causa dificuldades excessivas para a empresa, os tribunais costumam exigir que os empregadores analisem cuidadosamente esses pedidos.
Um debate que vai além da religião
Independentemente do aspecto jurídico, a discussão revela algo mais amplo.
À medida que empresas incorporam inteligência artificial em praticamente todos os setores, cresce também o número de pessoas que questionam seus impactos éticos, ambientais e sociais.
Hoje, ferramentas de IA já participam de tarefas como programação, atendimento ao cliente, análise de documentos, produção de conteúdo e tomada de decisões empresariais.
Para muitos profissionais, o uso dessas tecnologias representa um avanço inevitável. Para outros, ele levanta preocupações legítimas sobre privacidade, autonomia, consumo energético e substituição do trabalho humano.
O início de uma nova disputa sobre inteligência artificial
Ainda é cedo para saber quantos trabalhadores tentarão seguir o caminho aberto por Erin Maus.
No entanto, especialistas acreditam que a encíclica do Papa Leão XIV poderá se tornar uma referência importante para aqueles que desejam limitar ou rejeitar o uso da inteligência artificial por motivos de consciência religiosa.
Mais do que um debate sobre tecnologia, a questão coloca em discussão um tema cada vez mais relevante: até que ponto as empresas poderão exigir a utilização de ferramentas de IA em um mundo onde nem todos compartilham a mesma visão sobre o papel dessas tecnologias.
Se a adoção da inteligência artificial já transformou o mercado de trabalho, a reação a ela pode estar apenas começando.