Durante anos, o açúcar foi apontado como um dos grandes vilões da saúde moderna. Da obesidade às doenças cardíacas, ele parece sempre estar no banco dos réus. Mas quando o assunto é saúde mental, a história é mais complexa do que parece. Um novo estudo com quase 170 mil pessoas reacendeu o debate ao sugerir que o consumo moderado pode não ser tão prejudicial ao cérebro quanto se pensava. A questão, como quase sempre na nutrição, está no equilíbrio.
O estudo que mudou o tom do debate
A pesquisa foi publicada no periódico científico The Journal of Nutrition, Health and Aging e analisou dados de cerca de 170 mil adultos do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo, que acompanha meio milhão de voluntários no Reino Unido há mais de uma década.
Os cientistas cruzaram informações sobre hábitos alimentares, consumo de açúcar e diagnósticos de depressão e ansiedade registrados em prontuários médicos. O resultado chamou atenção: pessoas que consumiam pequenas quantidades de açúcar apresentavam menor risco de desenvolver sintomas depressivos em comparação com aquelas que evitavam completamente o ingrediente.
O dado surpreende porque vai contra a narrativa dominante de que qualquer quantidade de açúcar é prejudicial. Para a nutricionista Lara Natacci, pesquisadora da USP especializada na relação entre alimentação e saúde mental, o estudo reforça a importância de evitar radicalismos. “O artigo destaca a importância do equilíbrio no cardápio”, observa.
Mas há um ponto crucial: trata-se de um estudo observacional. Isso significa que ele identifica associações, mas não prova causa e efeito. “Não dá para afirmar que o açúcar melhora a saúde mental, apenas que existe uma correlação”, explica Natacci. Além disso, os próprios participantes responderam aos questionários alimentares, o que pode gerar imprecisões nos dados.
Mesmo com essas limitações, os achados ajudam a levantar hipóteses importantes. Uma delas é que o açúcar, por ser uma fonte rápida de glicose, pode ativar áreas do cérebro ligadas ao alívio de tensão e à sensação de prazer. Afinal, a glicose é o principal combustível do cérebro. Em momentos de escassez energética, é comum surgir irritabilidade, fadiga e dificuldade de concentração.
Em outras palavras: em doses pequenas, o açúcar pode funcionar como um empurrão bioquímico temporário para o bem-estar — sem que isso signifique que ele deva ser consumido livremente.
Quando o doce vira problema para o cérebro
Se por um lado pequenas quantidades podem não ser um desastre, o excesso conta outra história. O mesmo estudo aponta que o consumo elevado de açúcar está associado a maior risco de depressão e ansiedade ao longo do tempo.
Os mecanismos por trás disso são múltiplos. Pesquisas anteriores mostram que a ingestão crônica de grandes volumes de açúcar favorece processos inflamatórios e o aumento do estresse oxidativo no organismo. Esses fatores podem interferir na função dos neurônios e acelerar o declínio cognitivo, criando maior vulnerabilidade para transtornos mentais.
Além disso, dietas muito ricas em açúcar alteram a produção de neurotransmissores ligados ao bem-estar, como a dopamina. O resultado é um ciclo perigoso: picos de prazer seguidos por quedas bruscas de energia e humor, o que pode alimentar compulsões e oscilações emocionais.
Outro ponto importante é o impacto do açúcar na microbiota intestinal. Cada vez mais estudos indicam que o equilíbrio das bactérias do intestino influencia diretamente o humor e a saúde mental. Dietas açucaradas tendem a prejudicar esse ecossistema, o que pode refletir em maior irritabilidade, ansiedade e até sintomas depressivos.
No Brasil, o cenário é particularmente preocupante. Segundo dados do IBGE, a ingestão média diária de açúcar chega a cerca de 80 gramas por pessoa — o equivalente a 18 colheres de chá. A Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo não ultrapasse 50 gramas por dia em uma dieta de 2.000 calorias.
Especialistas defendem que o foco não deve ser demonizar um único ingrediente, mas olhar para o padrão alimentar como um todo. Dietas ricas em frutas, hortaliças, grãos integrais, castanhas e peixes — semelhantes ao padrão mediterrâneo — oferecem nutrientes neuroprotetores que ajudam a blindar a saúde mental.
Pequenas mudanças práticas também fazem diferença: reduzir o açúcar em receitas, usar especiarias como canela e cravo para dar sabor, reeducar o paladar para consumir bebidas sem adoçar e prestar atenção aos rótulos de industrializados.
No fim das contas, o açúcar não é um herói nem um vilão absoluto. Ele é uma ferramenta metabólica poderosa — que, usada com moderação, pode coexistir com uma mente saudável. O problema começa quando o doce vira rotina, fuga emocional ou base da alimentação.
Fonte: Metropoles