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Ciência

O custo da crise climática: quando a pobreza também significa viver sob ameaça

Um estudo da Universidade de Oxford revelou que 8 em cada 10 pessoas em situação de pobreza no mundo estão expostas diretamente a riscos ambientais como calor extremo, enchentes, secas e poluição. A pesquisa mostra como desigualdade e crise climática se alimentam mutuamente, formando uma armadilha global.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O impacto do clima extremo não afeta todas as pessoas da mesma forma. Enquanto alguns países contam com infraestrutura robusta e seguros ambientais, milhões de pessoas vivem na intersecção mais perigosa do planeta: a que une pobreza estrutural e risco climático. O Índice Global de Pobreza Multidimensional 2025, elaborado pela Universidade de Oxford em parceria com o PNUD, trouxe pela primeira vez um diagnóstico detalhado dessa sobreposição, revelando o peso desigual da crise ambiental.

Pobreza e clima: uma armadilha dupla

A pobreza multidimensional vai além da falta de renda: considera saúde, educação, moradia, energia, água e saneamento. Agora, somam-se a esses fatores os riscos climáticos, que funcionam como um multiplicador de danos.

O relatório mostra que 887 milhões de pessoas pobres — quase 80% do total global — vivem sob ameaça ambiental direta. Destas, 651 milhões enfrentam pelo menos dois riscos simultâneos, enquanto mais de 300 milhões lidam com três ou quatro ao mesmo tempo. Trata-se de uma “tripla ou quádrupla carga”: pobreza, vulnerabilidade, ausência de proteção social e exposição a eventos extremos.

Onde a desigualdade climática é mais intensa

Os mapas do relatório revelam que a desigualdade ambiental tem coordenadas claras. Ásia do Sul e África Subsaariana concentram quase 80% da população pobre exposta, com 380 milhões e 344 milhões de pessoas, respectivamente.

Na Ásia do Sul, o dado é chocante: 99% das pessoas em extrema pobreza enfrentam ao menos um perigo climático. O paradoxo é evidente: as regiões que menos contribuíram para o aquecimento global são justamente as mais atingidas por suas consequências.

O retrato da América Latina e o caso argentino

Na América Latina, o quadro é heterogêneo. A Argentina aparece entre os países com menor incidência de pobreza multidimensional, com apenas 0,4% da população nesse patamar. No entanto, desigualdades regionais persistem: as áreas do NEA e NOA apresentam maiores índices de privação ligados ao acesso à água potável, saneamento e ativos básicos.

Embora a exposição ambiental na região não alcance os níveis da África ou da Ásia, as diferenças entre zonas urbanas e rurais continuam marcando vulnerabilidades. O relatório destaca que análises locais do índice são fundamentais para ajustar políticas públicas e monitorar como mudanças econômicas ou climáticas afetam a realidade da pobreza.

Como foi medida a pobreza ambiental

O estudo cruzou dados de 109 países com registros de satélite sobre quatro ameaças principais: calor extremo, secas, inundações e poluição por partículas finas (PM2.5). Essa sobreposição permitiu criar a primeira cartografia global da pobreza ambiental.

Os resultados mostram que a crise climática não só aumenta a desigualdade entre países, mas também dentro deles, atingindo com maior intensidade comunidades sem infraestrutura, seguros ou redes de apoio social.

Políticas para um desafio duplo

Os autores do relatório reforçam que combater a pobreza e enfrentar a mudança climática não são agendas separadas, mas interdependentes. Pedro Conceição, do PNUD, alerta que “as cargas identificadas não se limitam ao presente e se intensificarão no futuro”.

Entre as recomendações estão: fortalecer a adaptação comunitária, criar sistemas de proteção social resilientes e direcionar o financiamento climático internacional para as regiões mais vulneráveis.

A conclusão é clara: no século XXI, viver na pobreza significa também viver sob ameaça climática. Reduzir uma sem enfrentar a outra seria, segundo o relatório, “curar o sintoma e deixar intacta a doença”.

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