O mundo das redes sociais, muitas vezes envolto em ostentação e promessas fáceis, acaba revelando bastidores mais complexos do que se imagina. É o caso do influenciador conhecido como Mohammed MDM, alvo de uma operação policial que investiga a promoção ilegal de jogos de azar na internet. Com quase 200 mil seguidores, ele agora está no centro de uma investigação que se estende por três estados e movimentou milhões de reais.
Um influenciador, múltiplas empresas e suspeitas que se acumulam
Natural de Franca (SP) e atualmente residindo em Araguari (MG), Tailon Artiaga Ferreira Silva, conhecido como Mohammed MDM, tem 31 anos e um perfil recheado de ostentação: carros de luxo, viagens, festas e negócios variados. Nas redes sociais, ele se apresenta como CEO de uma organização de e-sports chamada LORDS GG, fundador de uma assessoria de marketing de influência, a TR Assessoria, e proprietário de uma estética automotiva, a Auto Spa.
Em uma publicação, chegou a mencionar ter conquistado seu primeiro milhão aos 29 anos. Seu nome, no entanto, agora aparece entre os 15 investigados da Operação Desfortuna, desencadeada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro com o apoio de órgãos especializados em lavagem de dinheiro.
Segundo dados oficiais, Tailon também foi registrado como Microempreendedor Individual (MEI) em 2021, com atividades voltadas ao comércio de artigos esportivos e fabricação de brinquedos. A empresa, porém, teve o CNPJ baixado em 2023.
O que está por trás da Operação Desfortuna
Deflagrada em 7 de agosto, a Operação Desfortuna cumpre mandados de busca e apreensão em três estados: Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. O foco são crimes como lavagem de dinheiro, estelionato, publicidade enganosa e violação à economia popular — todos relacionados à promoção de jogos de azar on-line.
Entre os principais alvos estão influenciadores digitais com milhares de seguidores, incluindo nomes populares como Bia Miranda, Buarque, Maumau (preso em flagrante) e Mohammed MDM. De acordo com as investigações, eles atuavam como divulgadores de jogos ilegais, como o popular “Jogo do Tigrinho”, promovendo ganhos rápidos e mudanças de vida com base apenas na sorte.
Relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) mostram que os envolvidos movimentaram cerca de R$ 40 milhões em contas pessoais entre 2022 e 2024. A estimativa da polícia, no entanto, é ainda mais ampla: o esquema pode ter girado R$ 4,5 bilhões no total.
Segundo o delegado Renan Mello, os investigados exibiam um padrão de vida elevado justamente para atrair seguidores e convencê-los a apostar. A suspeita é de que eles recebiam comissões sobre as perdas dos apostadores que acessavam os sites por meio dos links promocionais.
Como funcionava o esquema, segundo as investigações
As apurações indicam que a atuação dos influenciadores ia além da mera divulgação. Havia uma estrutura organizada, com divisão de tarefas entre os divulgadores, operadores financeiros e empresas de fachada. A ideia era criar uma rede que parecesse legítima aos olhos dos seguidores, mas que operava de forma irregular.
Além da promoção nas redes sociais, alguns influenciadores também movimentavam altas quantias em contas bancárias, sugerindo envolvimento direto na gestão do dinheiro oriundo dos jogos. Os investigadores também avaliam se os lucros eram mascarados por meio de serviços prestados por empresas de marketing digital e assessorias — prática comum em esquemas de lavagem de dinheiro.
A Operação Desfortuna é conduzida em conjunto com o Gabinete de Recuperação de Ativos (GRA) e com o Laboratório de Tecnologia Contra Lavagem de Dinheiro (Lab-LD), ambos da Polícia Civil do Rio.
O que é o ‘Jogo do Tigrinho’ e por que ele virou alvo da polícia
Conhecido oficialmente como Fortune Tiger, o chamado “Jogo do Tigrinho” é um dos muitos cassinos on-line que viralizaram nas redes sociais nos últimos anos. A proposta do game é simples: o jogador tenta alinhar três figuras iguais em uma máquina virtual para ganhar prêmios em dinheiro.
Embora seja apresentado como um jogo inofensivo e divertido, ele se enquadra na categoria de jogos de azar — prática proibida no Brasil pela Lei de Contravenções Penais. O que diferencia esses cassinos on-line de sites de apostas regulamentados é justamente o fato de dependerem exclusivamente da sorte, e não de estratégias ou conhecimento específico, como ocorre nas chamadas “bets”.
Nos últimos anos, o Tigrinho ganhou popularidade graças a campanhas com influenciadores digitais, que exibiam táticas de jogo e ganhos astronômicos. Muitos seguidores, iludidos pelas promessas de lucro fácil, acabaram apostando — e perdendo — grandes quantias.
O que pode acontecer agora
Com a deflagração da operação, os investigados estão sendo monitorados e podem responder judicialmente por crimes financeiros e contra a economia popular. Em casos comprovados, as penas podem incluir multa, bloqueio de bens e até prisão.
Mohammed MDM, assim como os demais influenciadores citados, ainda não se manifestou publicamente. O g1 informou que tenta contato com a defesa do investigado.
Enquanto isso, a repercussão do caso reacende o debate sobre o papel dos influenciadores digitais e os limites éticos da promoção de produtos e serviços nas redes sociais — especialmente quando envolvem promessas irreais e impactos financeiros graves para o público.
A investigação continua, e o desfecho poderá servir como alerta para quem vê nas redes sociais apenas glamour, sem perceber os riscos que, muitas vezes, estão por trás das telas.
[Fonte: G1 – Globo]