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Ciência

O futuro da oliveira está protegido: sementes de 50 variedades passam a integrar a ‘arca do fim do mundo’ no Ártico

No coração do Ártico, a maior reserva de sementes do planeta agora abriga variedades de oliveira. A iniciativa reforça a proteção genética de um dos cultivos mais emblemáticos do Mediterrâneo diante das ameaças climáticas, pragas e crises globais.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em pleno Círculo Polar Ártico, escavada no permafrost da ilha de Spitsbergen, a Svalbard Global Seed Vault funciona como uma espécie de cofre mundial da biodiversidade agrícola. Conhecida como “arca do fim do mundo”, a instalação mantém duplicatas de sementes enviadas por bancos de germoplasma de diversos países, armazenadas a −18 °C para garantir sua conservação por décadas — mesmo em caso de falhas elétricas ou crises globais.

Desde este inverno, a coleção passou a incluir sementes de oliveira, marcando um momento histórico para a preservação desse cultivo milenar.

Um reforço contra as ameaças ambientais

Oliva
© Melina Kiefer – Unsplash

A inclusão das sementes ocorre em um contexto de crescentes riscos ambientais. A oliveira enfrenta desafios como mudanças climáticas, perda de diversidade genética, expansão de monoculturas e aumento de pragas e doenças.

Para mitigar esses riscos, foi lançado o projeto europeu GEN4OLIVE, financiado pelo programa Horizon 2020, com foco na conservação e valorização dos recursos genéticos da oliveira.

As sementes depositadas pertencem a 50 variedades amplamente cultivadas no mundo. Elas foram coletadas a partir da coleção do Banco Mundial de Germoplasma de Olivo da Universidad de Córdoba (BGMO-UCO), que reúne cerca de 700 variedades distintas, incluindo exemplares silvestres.

Uma estratégia diferente de conservação

Tradicionalmente, as variedades de oliveira são multiplicadas por reprodução vegetativa, e não por sementes. Por isso, bancos de germoplasma costumam manter árvores vivas em campos experimentais.

Para o depósito em Svalbard, foi adotada uma abordagem complementar: preservar a variabilidade genética por meio de sementes obtidas por polinização aberta e de populações silvestres.

O INIA-CSIC, por meio do Centro de Recursos Fitogenéticos, ficará responsável pela conservação de cópias de segurança na Espanha e pelo envio do duplicado à Noruega.

Da azeitona ao cofre subterrâneo

O processo técnico foi rigoroso. Para cada variedade selecionada, foram colhidas mais de 1.500 azeitonas. Em laboratório, a polpa foi removida, os caroços (endocarpos) foram limpos e secos, e as sementes classificadas e etiquetadas.

Antes do envio, foram realizados testes de germinação para verificar a viabilidade. Parte das sementes permanece armazenada em recipientes herméticos a −18 °C na Espanha, enquanto outra parte foi acondicionada em envelopes especiais com informações detalhadas sobre origem e códigos genéticos.

Esses dados também foram registrados no banco de dados da NordGen, responsável pela gestão operacional da Svalbard Global Seed Vault.

O transporte até Longyearbyen, cidade próxima à instalação, envolveu logística terrestre e aérea até que as amostras fossem finalmente depositadas nas câmaras subterrâneas.

Controles periódicos e visão de longo prazo

As sementes passarão por monitoramento periódico, com avaliações de viabilidade a cada dez anos. Esse acompanhamento é essencial para garantir que o material continue apto à germinação no futuro.

O depósito representa a primeira vez que sementes de oliveira são armazenadas nessa infraestrutura, ampliando a diversidade de espécies preservadas no cofre ártico.

Segurança alimentar e cooperação internacional

Mais do que um marco científico, a iniciativa simboliza cooperação internacional entre universidades, centros de pesquisa e organismos multilaterais.

A oliveira é um dos cultivos mais emblemáticos da bacia do Mediterrâneo e base econômica de milhões de produtores. Preservar sua diversidade genética significa proteger não apenas a cultura alimentar associada ao azeite e à azeitona, mas também a resiliência agrícola diante de eventos extremos.

Em um mundo marcado por instabilidade climática e geopolítica, iniciativas como essa reforçam a segurança alimentar global. A “arca do fim do mundo” não é apenas um cofre congelado: é um seguro genético para o futuro da agricultura.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

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