Visitado por centenas de milhares de turistas todos os anos e considerado um dos poucos glaciares “estáveis” do planeta, o Perito Moreno, na Patagônia argentina, acaba de entrar para a lista das vítimas do aquecimento global. Um estudo publicado na Communications Earth & Environment revela que sua retração acelerou de forma inédita.
De ícone estável a glaciar em fuga

Localizado no Campo de Gelo Patagônico Sul, o Perito Moreno manteve-se por décadas firmemente encaixado num vale, preso ao leito rochoso. Mas imagens de lapso de tempo desde 2020 mostram que essa âncora natural está cedendo. À medida que perde o ponto de apoio, o glaciar desprende mais gelo e recua a uma velocidade inédita.
Segundo Moritz Koch, doutorando da Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nuremberg e coautor do estudo, o fenômeno é resultado de uma resposta “retardada” às mudanças climáticas. “Não estava climaticamente estável há mais de uma década. Agora vemos o efeito acumulado, com o desprendimento lento, mas inevitável, da parte central do glaciar.”
O trabalho de campo que revelou a verdade
Para chegar aos resultados, a equipe sobrevoou o glaciar de helicóptero com um radar suspenso para medir a espessura do gelo, usou sonar no Lago Argentino e complementou com dados de satélite. O conjunto de medições confirmou o que os cientistas temiam: o Perito Moreno poderá recuar vários quilômetros nos próximos anos.
A física é simples, a previsão não
Para o glaciólogo Richard Alley, da Universidade Estadual da Pensilvânia, que não participou da pesquisa, o princípio é claro: mais calor significa mais derretimento. Mas, tal como prever quando uma xícara de café vai esfriar, estimar exatamente quando e como um glaciar vai colapsar é muito mais complexo.
Céticos do clima costumavam apontar o Perito Moreno como prova de que nem todo gelo recuava. Agora, sua transformação reforça a ideia de que estabilidade não é imutável.
Erin Pettit, glacióloga da Universidade Estadual do Oregon, explica que mesmo em climas estáveis há pequenas flutuações. “Se o clima fosse estável, a neve e o gelo acumulados compensariam o derretimento e o deslocamento”, afirma.
Por que o derretimento preocupa
O retrocesso de glaciares, sobretudo nos polos, pode provocar aumento significativo do nível do mar, ameaçando cidades costeiras e ilhas habitadas. Para Alley, estudos como este ajudam a compreender o que pode acontecer com gigantes da Antártida.
Mas até glaciares menores têm grande impacto local. Segundo Pettit, eles moldaram paisagens, abastecem comunidades com água potável e fazem parte da identidade cultural de muitos povos. Quando colapsam, podem provocar deslizamentos e inundações.
“Estamos perdendo pedaços de gelo em todos os lugares”, diz Pettit. “Felizmente, aos poucos, estamos aprendendo a respeitar o gelo que já esteve aqui, mesmo quando ele desaparece.”
[ Fonte: Euronews ]