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Ciência

O hábito comum que pode antecipar um AVC em mais de uma década, segundo a ciência

Um estudo recente nos Estados Unidos acendeu um alerta importante: o consumo frequente de álcool está associado a derrames cerebrais mais precoces e mais graves. Os dados mostram que o impacto vai muito além do fígado e do comportamento social, atingindo diretamente estruturas profundas do cérebro.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante muito tempo, o consumo de álcool foi visto como um risco principalmente para o fígado ou para o sistema cardiovascular em geral. No entanto, novas evidências científicas indicam que o cérebro pode ser um dos órgãos mais afetados, especialmente quando o consumo é elevado e constante. Um estudo amplo ajuda a entender por que o álcool está cada vez mais ligado a casos de AVC em idades mais jovens.

O que o estudo analisou

A pesquisa foi conduzida por cientistas do hospital Mass General Brigham, nos Estados Unidos, e publicada na revista científica Neurology. Os pesquisadores analisaram dados de cerca de 1.600 pacientes atendidos entre 2003 e 2019 com hemorragia cerebral não traumática, ou seja, AVCs hemorrágicos que não estavam relacionados a acidentes ou pancadas.

Todos os participantes passaram por exames detalhados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, que permitiram avaliar a extensão do sangramento cerebral logo após o evento. O objetivo era identificar padrões entre o consumo de álcool, a idade do AVC e a gravidade das lesões.

Quanto mais álcool, maior e mais cedo o risco

Os resultados foram claros. Pessoas que consumiam três ou mais doses de álcool por dia apresentaram um risco 57% maior de sofrer AVC em comparação com aquelas que bebiam pouco. Além disso, as hemorragias cerebrais nesse grupo foram até 70% maiores.

Um dado especialmente preocupante foi a idade. Entre os grandes consumidores de álcool, a média de ocorrência do AVC foi aos 64 anos. Já entre os que não tinham esse hábito, o derrame aconteceu, em média, aos 75 anos — uma diferença de 11 anos.

Mesmo níveis considerados mais baixos, como duas doses diárias, já se associaram a sangramentos em regiões profundas do cérebro, áreas ligadas a piores desfechos clínicos.

Por que o álcool afeta tanto o cérebro

O consumo excessivo de álcool atua por vários mecanismos ao mesmo tempo. Ele eleva a pressão arterial de forma sustentada, provoca picos hipertensivos abruptos, danifica as paredes das pequenas artérias cerebrais e interfere na coagulação do sangue.

Com o passar do tempo, essas alterações tornam os vasos mais frágeis e suscetíveis à ruptura. Além disso, o álcool pode reduzir o número de plaquetas e comprometer a função do fígado, aumentando ainda mais o risco de sangramentos extensos e complicações durante tratamentos cirúrgicos.

AVC mais grave e maior mortalidade

O AVC hemorrágico já é, por si só, um quadro grave. Estima-se que até 50% dos pacientes morram e cerca de 30% fiquem com incapacidades severas. Quando o consumo elevado de álcool entra em cena, o cenário piora significativamente.

No estudo americano, metade dos pacientes que bebiam muito morreu em até 30 dias após o AVC — uma taxa quase 20% maior do que a observada entre os demais pacientes.

Não existe dose totalmente segura

Pesquisas recentes reforçam que não há uma dose completamente segura de álcool do ponto de vista neurológico. Mesmo o consumo considerado moderado está associado a micro-hemorragias, lesões em pequenos vasos e perda da integridade da substância branca do cérebro.

Esses efeitos são cumulativos e tendem a se agravar com os anos, ajudando a explicar o aumento de casos de AVC em adultos com menos de 50 anos.

Um alerta para prevenção

Os achados reforçam que o álcool não é apenas um fator social ou comportamental, mas um risco direto para a saúde cerebral. Reduzir ou evitar o consumo regular, controlar a pressão arterial e adotar hábitos saudáveis continuam sendo as estratégias mais eficazes para proteger o cérebro e reduzir o risco de um AVC precoce e devastador.

Fonte: Metrópoles

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