A aspirina é um dos medicamentos mais antigos e populares do mundo, usada há décadas como analgésico, antitérmico e anti-inflamatório. Agora, ela volta ao centro das atenções por um motivo diferente: seu potencial para reduzir o risco de desenvolver determinados tipos de câncer. Pesquisadores do Reino Unido afirmam ter identificado um mecanismo-chave que ajuda a explicar esse efeito, debatido pela ciência há mais de 30 anos.
O estudo, conduzido por cientistas da Unidade de Ensaios Clínicos do Medical Research Council (MRC) no University College London (UCL), foi publicado na prestigiada revista The New England Journal of Medicine. Segundo os autores, a aspirina pode atuar ao suprimir a ativação das plaquetas — células do sangue tradicionalmente associadas à coagulação, mas que também desempenham um papel importante no desenvolvimento tumoral.
O papel inesperado das plaquetas no câncer

Durante muito tempo, as plaquetas foram vistas apenas como protagonistas na cicatrização e na prevenção de sangramentos. No entanto, pesquisas mais recentes mostram que, quando ativadas, elas podem favorecer o crescimento de tumores. Isso acontece porque estimulam processos inflamatórios e dificultam a ação do sistema imunológico contra células cancerígenas que se espalham pelo organismo.
Os cientistas observaram que a ativação plaquetária cria um ambiente propício para o surgimento de novos tumores e para a disseminação do câncer. Em modelos animais, esse efeito foi claramente identificado. A aspirina, por sua vez, bloqueia esse processo ao inibir a ativação das plaquetas, reduzindo a inflamação e limitando a progressão tumoral.
Doses baixas podem ser suficientes
Um dos pontos mais relevantes da descoberta é que doses baixas de aspirina — entre 75 e 100 miligramas por dia — parecem ser suficientes para alcançar esse efeito protetor. Essa conclusão é reforçada por dados do ensaio clínico CAPP-3, liderado pelo professor Sir John Burn, da Universidade de Newcastle.
O estudo mostrou que, em pessoas com síndrome de Lynch — uma condição genética que aumenta significativamente o risco de câncer colorretal e outros tumores —, uma dose diária de 100 mg de aspirina foi tão eficaz quanto doses mais altas na prevenção do câncer hereditário. Para Burn, isso fortalece a hipótese de que a ação da aspirina sobre as plaquetas é central para seu efeito preventivo.
O projeto SPARC e os novos ensaios clínicos
A descoberta faz parte de uma iniciativa maior chamada SPARC, que reúne especialistas em farmacologia da aspirina, genética molecular e ensaios clínicos internacionais. O objetivo é entender, com mais precisão, como o medicamento pode ser usado de forma segura e eficaz na prevenção do câncer.
Segundo a professora Ruth Langley, autora principal do estudo, o grupo também está analisando dados de pacientes que passaram a tomar aspirina após o diagnóstico de câncer. “Além de investigar o mecanismo de ação, reunimos informações de ensaios clínicos ao redor do mundo”, explicou.
Entre esses estudos está o ensaio Add-Aspirin, que avalia se a aspirina pode reduzir a recorrência de certos tipos de câncer após o tratamento oncológico. Os primeiros resultados mostraram níveis elevados de ativação plaquetária durante meses após o fim do tratamento, o que motivou o aprofundamento das pesquisas.
Quem pode se beneficiar — e os cuidados necessários
Os achados são especialmente relevantes para pessoas com risco hereditário de câncer. Tracy Smith, representante da organização Lynch Syndrome UK, afirmou que a pesquisa oferece “uma esperança real” para famílias que convivem com esse risco. Entender quem pode se beneficiar mais do uso da aspirina é um dos grandes objetivos do projeto.
Ainda assim, os especialistas alertam: a aspirina não é isenta de riscos. O medicamento pode aumentar a chance de sangramentos, especialmente quando usado de forma contínua. Por isso, Langley enfatiza que ninguém deve iniciar o uso regular de aspirina sem orientação médica.
A descoberta representa um avanço importante, mas não uma solução definitiva. Ela abre caminho para estratégias de prevenção mais personalizadas e acessíveis, ao mesmo tempo em que reforça a importância de decisões médicas baseadas em evidências. Para muitos pacientes, cada novo passo nessa direção pode significar mais tempo — e mais qualidade de vida.
[ Fonte: Infobae ]