O Mar dos Sargaços é um dos lugares mais peculiares da Terra. Localizado em pleno Atlântico Norte, ele se distingue por não ter margens terrestres que o delimitem — suas fronteiras são criadas apenas por correntes oceânicas que giram como um enorme anel. A aparência tranquila e o acúmulo de algas flutuantes renderam-lhe uma aura misteriosa e até literária, presente em obras como Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. Mas a ciência atual revela um ecossistema muito mais complexo.
Um mar “cercado” por correntes, não por continentes

O Mar dos Sargaços ocupa cerca de 3,5 milhões de km², entre a costa leste dos Estados Unidos, Bermudas, Açores e o norte do Caribe. Ele não é delimitado por terra, mas pelas correntes que compõem o Giro do Atlântico Norte: a Corrente do Golfo, a Corrente do Atlântico Norte, a Corrente das Canárias e a Corrente Equatorial Norte.
Essas correntes circulam no sentido horário, empurrando lentamente água, nutrientes e organismos para dentro da região. Esse movimento forma uma enorme zona estável, quase parada, com pouca mistura entre águas superficiais e profundas.
É por isso que o mar parece calmo, de águas muito azuis e com pouca circulação de ventos — característica que alimentou mitos náuticos, incluindo o do Triângulo das Bermudas.
O reino do sargaço: algas que flutuam por si mesmas
A principal marca do Mar dos Sargaços é a presença do Sargassum, um gênero de algas marrons que flutua graças a pequenas bolsas de gás em suas folhas. Em vez de se fixarem ao fundo, elas se deslocam pela superfície formando mantos extensos que podem ocupar quilômetros.
Essas algas:
- Realizam fotossíntese, produzindo grandes quantidades de oxigênio
- Capturam nutrientes vindos do Caribe e da África Ocidental
- Criam micro-habitats que servem de abrigo para diversas espécies
Estima-se que mais de 5,5 milhões de toneladas de sargaço circulem na região em forma de cinturões flutuantes que podem chegar até o Golfo do México e às praias do Caribe.
Um “deserto marinho” que, paradoxalmente, abriga vida
Apesar da grande produção de oxigênio e da presença de algas, a biodiversidade do Mar dos Sargaços é limitada. Isso ocorre porque suas águas superficiais são quentes e pobres em nutrientes, impedindo que organismos se distribuam de forma ampla.
Ainda assim, algumas espécies dependem justamente desse ambiente isolado, como:
- Enguias americanas e europeias, que viajam até lá para desovar
- Tartarugas-cabeçudas jovens, que se escondem entre as algas até crescer
- Peixe-sapo dos sargaços (Histrio histrio), camuflado entre as folhas
- Crustáceos, camarões, anêmonas e pequenos moluscos
Além disso, cachalotes e baleias-jubarte às vezes atravessam a região durante migrações.
Quando o sargaço chega à costa, surgem problemas
Empurradas por correntes, grandes massas de sargaço podem atingir praias — especialmente no Caribe. Quando se acumulam em terra:
- Apodrecem em até 48 horas
- Liberam sulfeto de hidrogênio, gás tóxico e de odor forte
- Atraem moscas e insetos
- Podem carregar microplásticos e bactérias para ecossistemas costeiros
Esses episódios têm impacto turístico, ambiental e sanitário cada vez maior.
Entre mitos históricos e ciência atual
Por séculos, navegadores acreditaram que o mar prendia embarcações em seu tapete de algas. Hoje sabemos que a sensação de imobilidade se deve à falta de ventos, causada por zonas de alta pressão atmosférica conhecidas como “latitudes dos cavalos”.
A etimologia do nome vem do português: “sargaço” é uma referência ao aspecto das algas, semelhantes a cachos de uvas.
O Mar dos Sargaços hoje

Além de seu valor ecológico, o Mar dos Sargaços é peça-chave na compreensão:
- da circulação oceânica global
- da migração de espécies marinhas
- da produção natural de oxigênio em larga escala
É um lembrete de como os mares escondem mundos inteiros, com dinâmicas próprias — mesmo longe de qualquer costa.
Em meio à vastidão do Atlântico, ele permanece um mar silencioso, flutuante e fascinante — o único que, paradoxalmente, não toca terra alguma.
[ Fonte: La Brujula Verde ]