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Ciência

Remolinos de polvo em Marte revelam ventos furiosos e mudam o que sabíamos sobre o clima do planeta vermelho

Um estudo inédito revelou ventos de até 160 km/h em Marte — os mais fortes já detectados — graças à análise de duas décadas de imagens orbitais. Os remoinhos de poeira, antes considerados raros, são muito mais abundantes e desempenham papel crucial no clima e na formação de tempestades marcianas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante vinte anos, sondas orbitando Marte registraram silenciosamente o movimento do pó vermelho que cobre o planeta. Agora, cientistas descobriram que esses grãos revelam algo surpreendente: ventos extremamente rápidos e remoinhos poderosos espalhados por todo o planeta. O novo estudo, publicado na Science Advances, não apenas reescreve o que se sabia sobre o clima marciano, mas também ajuda a planejar futuras missões humanas ao planeta vermelho.

Ventos de até 160 km/h varrem Marte

Utilizando dados das sondas Mars Express e ExoMars Trace Gas Orbiter, da Agência Espacial Europeia (ESA), uma equipe internacional treinou uma rede neural para identificar vórtices de poeira nas imagens captadas entre 2004 e 2024. O resultado: um catálogo com 1.039 remoinhos de poeira marcianos, alguns localizados até mesmo no topo de antigos vulcões.

As medições indicam que os ventos que formam esses redemoinhos podem atingir velocidades de até 160 km/h, muito acima dos registros obtidos por rovers na superfície. “Descobrimos uma nova peça do quebra-cabeça do ciclo do pó marciano”, explicou o pesquisador suíço Valentin Bickel, autor principal do estudo.

Esses ventos furiosos têm força suficiente para levantar grandes quantidades de poeira da superfície, alimentando tempestades e influenciando diretamente o clima do planeta.

Um planeta coberto por poeira e mistério

Marte Science
© NASA/JPL-Caltech

Na Terra, a chuva ajuda a limpar a atmosfera, mas em Marte o cenário é diferente. A poeira, uma vez suspensa, pode permanecer por semanas, envolvendo o planeta inteiro. Esse material bloqueia a luz solar, reduzindo as temperaturas diurnas, e ao mesmo tempo atua como isolante, mantendo o calor à noite.

Os pesquisadores agora acreditam que os remoinhos de poeira desempenham um papel muito maior nesse processo do que se imaginava. A região de Amazonis Planitia, uma vasta planície de areia e poeira, mostrou-se o principal berço dessas formações, especialmente durante a primavera e o verão marcianos.

Inteligência artificial revela ventos invisíveis

Nenhuma das sondas usadas no estudo foi projetada para medir diretamente a velocidade do vento. Porém, os cientistas aproveitaram um detalhe técnico: as câmeras capturam imagens em múltiplos canais com pequenos intervalos de tempo. Quando algo se move — como um redemoinho — surgem deslocamentos de cor na imagem final, o que permitiu calcular sua velocidade.

Esse truque revelou não apenas a intensidade dos ventos, mas também sua direção e padrão de movimento. Os redemoinhos mais rápidos tendem a seguir trajetórias retas, enquanto os mais lentos se deslocam de forma irregular, de um lado para o outro.

Poeira, clima e futuras missões

China Marte
© X / @ChinaScience.

Os dados mostram que os redemoinhos levantam entre 2.000 e 55.000 toneladas de poeira por ano em cada hemisfério. Essa quantidade é suficiente para alterar os modelos climáticos de Marte, que até agora subestimavam a força dos ventos responsáveis pela erosão e deposição de sedimentos.

Segundo a pesquisadora Lori Fenton, do Instituto SETI, “a mobilização de areia e poeira é um dos processos mais importantes para compreender a evolução da superfície e o clima marciano”.

Essas descobertas também têm impacto direto na exploração espacial. A poeira foi responsável por encerrar missões como as dos rovers Opportunity (2019) e InSight (2022), ao cobrir seus painéis solares. Por outro lado, em 2009, um redemoinho ajudou a limpar os painéis do rover Spirit, prolongando sua operação.

Um guia para o futuro em Marte

Com base nos novos dados, os cientistas já estão utilizando o catálogo para escolher o local de pouso ideal do rover Rosalind Franklin, da missão ExoMars, prevista para 2030. As medições poderão ajudar a prever quanto pó se acumula sobre os painéis solares e como ele é redistribuído pelo vento.

“Até entendermos completamente esses redemoinhos, a energia solar em Marte continuará sendo uma incógnita”, afirmou o cientista planetário Ralph Lorenz, da Universidade Johns Hopkins.

Os pesquisadores destacam que compreender o clima de Marte é também uma forma de compreender melhor o da Terra. “Estudar o sistema solar não é apenas exploração”, disse o climatólogo J. Michael Battalio, da Universidade de Yale. “É uma maneira de entender o nosso próprio planeta.”

 

[ Fonte: CNN ]

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