Durante décadas, a obesidade foi tratada como uma epidemia global que avançava da mesma forma em praticamente todos os países. Ano após ano, os índices subiam sem distinção entre economias ricas ou emergentes. Mas um novo estudo internacional acaba de mostrar que o cenário mudou — e de forma muito mais desigual do que os especialistas imaginavam. O problema continua crescendo, mas agora em velocidades completamente diferentes dependendo da região do planeta.
O estudo que identificou três ritmos diferentes para a obesidade global
Uma análise publicada na revista Nature avaliou dados de mais de 200 países entre 1980 e 2024 e encontrou algo que começa a alterar a forma como a obesidade é compreendida no mundo. A epidemia não desapareceu, mas deixou de seguir um comportamento uniforme.
Os pesquisadores identificaram três padrões distintos. O primeiro aparece principalmente na Europa Ocidental e em algumas economias desenvolvidas. Nesses países, a obesidade ainda é um problema importante, mas o crescimento desacelerou de maneira significativa nos últimos anos. Em alguns casos, os números praticamente entraram em estabilidade depois de décadas de alta contínua.
O segundo grupo inclui Estados Unidos, Canadá, Austrália e outros países anglófonos. Ali, a curva também perdeu força, mas existe uma diferença importante: a desaceleração aconteceu somente depois que os índices atingiram níveis extremamente elevados. Ou seja, a obesidade deixou de crescer tão rapidamente, mas permanece em patamares considerados críticos.
Já o terceiro grupo é o que mais preocupa os pesquisadores. América Latina, partes da África, Ásia e Oriente Médio continuam registrando crescimento acelerado. E não apenas em países onde a obesidade era historicamente baixa. Em muitas dessas regiões, os índices já eram altos e continuam aumentando em velocidade ainda maior.
O estudo sugere que o centro da epidemia global está mudando gradualmente de lugar. Durante muito tempo, a obesidade esteve associada principalmente a países ricos. Agora, o avanço mais intenso acontece justamente em economias médias e de baixa renda.
O fator econômico por trás da nova explosão de casos
Os pesquisadores apontam que essa transformação acompanha mudanças profundas na estrutura das sociedades modernas. Urbanização acelerada, jornadas de trabalho mais longas, aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e acesso cada vez maior a produtos baratos e altamente calóricos ajudam a explicar o fenômeno.
Em muitos países emergentes, alimentos industrializados passaram a custar menos do que refeições frescas e nutritivas. Isso criou um cenário em que milhões de pessoas passaram a consumir dietas mais calóricas sem que houvesse melhora proporcional em educação alimentar ou infraestrutura de saúde pública.
Ao mesmo tempo, as nações que começaram a estabilizar seus índices geralmente possuem sistemas de saúde mais robustos, campanhas preventivas antigas e maior acesso a acompanhamento médico. Isso não significa que resolveram o problema, mas conseguiram reduzir a velocidade de crescimento.
Essa diferença econômica aparece como um dos pontos centrais do estudo. A obesidade continua sendo um fenômeno global, mas a capacidade de enfrentá-la não está distribuída da mesma maneira entre os países.
Por que Ozempic e Wegovy ainda não mudaram os números globais
Uma das grandes dúvidas levantadas pelo estudo envolve os medicamentos que ganharam enorme popularidade nos últimos anos, como Ozempic e Wegovy. Os remédios baseados em semaglutida e tirzepatida mostraram resultados expressivos em estudos clínicos e criaram expectativas sobre uma possível mudança mundial nos índices de obesidade.
Mas os pesquisadores afirmam que esse impacto ainda praticamente não aparece nos dados globais.
Existe uma explicação simples para isso. Apesar da enorme repercussão, esses medicamentos começaram a se popularizar em larga escala apenas recentemente. O período analisado pelo estudo cobre mais de quatro décadas, e a expansão desses tratamentos ainda é muito limitada diante da dimensão global do problema.
Além disso, o acesso continua profundamente desigual. Em muitos países da América Latina, África e partes da Ásia, os medicamentos têm preços extremamente altos e raramente são oferecidos em sistemas públicos de saúde. Isso significa que justamente as regiões onde a obesidade mais cresce são aquelas onde os novos tratamentos quase não chegam.
Os autores do estudo defendem que o debate global sobre obesidade precisa mudar. A questão não é apenas quantas pessoas vivem com obesidade, mas em quais regiões a situação continua acelerando e quais fatores estruturais impedem uma desaceleração semelhante à observada em países ricos.
O retrato final é claro: a epidemia global não acabou. Ela apenas começou a seguir caminhos diferentes. E, cada vez mais, esses caminhos parecem determinados pela desigualdade econômica.