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Ciência

O oceano pode não suportar a velocidade com que o planeta está esquentando

Um novo estudo climático encontrou uma diferença surpreendente nas simulações: o destino de uma das principais correntes do Atlântico depende não apenas de quanto o planeta aquece.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Existe uma pergunta que há anos preocupa os cientistas que estudam o clima: quanto aquecimento seria necessário para desestabilizar uma das grandes engrenagens do oceano Atlântico? A resposta parecia depender principalmente da temperatura alcançada. Mas novas simulações sugerem que existe outra variável decisiva, muito menos intuitiva. O oceano pode reagir de maneiras completamente diferentes diante do mesmo aquecimento, dependendo de algo que normalmente não aparece nos termômetros.

O oceano pode estar olhando para algo além da temperatura

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida como AMOC, funciona como uma gigantesca rede de transporte dentro do oceano.

Ela leva águas relativamente quentes dos trópicos em direção ao Atlântico Norte. Em determinadas regiões, a água superficial perde calor, torna-se mais densa e afunda. Depois, correntes profundas transportam essa água de volta para o sul.

Esse sistema influencia a distribuição de calor, as chuvas e as temperaturas em diferentes regiões, incluindo partes da Europa Ocidental.

Por isso, os cientistas há muito tentam descobrir em que condições a AMOC poderia sofrer uma mudança abrupta.

O novo estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Utrecht e publicado na Nature Climate Change, propõe uma mudança importante nessa forma de pensar.

Em vez de alterar apenas a quantidade final de aquecimento, a equipe liderada por René van Westen modificou nas simulações a velocidade com que o dióxido de carbono aumentava na atmosfera.

O modelo climático utilizado foi o Community Earth System Model. Em uma simulação, a concentração de CO₂ aumentava 0,5 parte por milhão por ano. Na outra, o ritmo era cinco vezes maior: 2,5 ppm por ano, próximo do observado recentemente.

O resultado foi muito diferente do que se poderia esperar.

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© Theodor Vasile – Unsplash

A mesma temperatura produziu dois futuros completamente diferentes

Quando o aumento de CO₂ acontecia lentamente, a AMOC permaneceu estável até que o aquecimento global chegasse a aproximadamente 5,5 °C acima dos níveis pré-industriais.

No cenário de aquecimento mais rápido, porém, a circulação entrou em colapso pouco depois de o aquecimento ultrapassar 2 °C.

A diferença não significa que exista uma temperatura mágica na qual o oceano simplesmente “desliga”. O que muda é a capacidade do sistema de acompanhar as transformações que estão acontecendo.

Em um aquecimento gradual, diferentes partes do oceano conseguem se reorganizar ao longo do tempo. Já quando as mudanças acontecem rapidamente, processos que funcionam como mecanismos de compensação podem não conseguir acompanhar o ritmo.

Um deles está relacionado à salinidade do Atlântico Norte.

Com um aquecimento mais lento, maior evaporação e mudanças na extensão do gelo marinho podem contribuir para aumentar a salinidade das águas. Isso favorece a formação de água mais densa, que continua afundando e ajuda a sustentar a circulação.

O problema é que esse mecanismo de estabilização funciona em escalas de tempo de séculos.

Se o clima muda rápido demais, o oceano pode simplesmente não ter tempo suficiente para acionar esse “freio”.

O detalhe que pode aproximar o risco das próximas décadas

Os pesquisadores estimaram uma taxa crítica de aquecimento próxima de 0,29 °C por década.

Esse valor chama atenção porque está próximo das taxas projetadas para as próximas décadas em estudos anteriores, estimadas entre 0,27 °C e 0,36 °C por década.

Nas condições analisadas pelos pesquisadores, a AMOC poderia começar a entrar em colapso por volta de 2060, com aproximadamente 2,5 °C de aquecimento.

É importante destacar que isso não representa uma previsão certa de que a circulação entrará em colapso nessa data. Trata-se do comportamento encontrado nas simulações sob determinadas condições.

O estudo também ajuda a colocar o derretimento da Groenlândia e do Ártico em uma perspectiva mais ampla. A entrada de água doce reduz a salinidade da superfície e pode dificultar o afundamento das águas densas.

Um trabalho anterior do mesmo grupo, publicado em 2024, indicou que seria necessário um volume de água doce considerado pouco realista nas condições atuais para provocar sozinho um colapso da AMOC.

O novo resultado acrescenta outra peça ao quebra-cabeça: o aquecimento rápido pode reduzir a margem de segurança da circulação mesmo sem um aporte extraordinário de água doce.

A principal mensagem, portanto, não é que exista uma data inevitável para o fim da AMOC. É que olhar apenas para a temperatura final pode esconder uma parte importante do risco.

Para uma corrente oceânica que depende de processos acontecendo em ritmos diferentes, a velocidade da mudança pode ser tão importante quanto o destino final.

E isso transforma a redução rápida do aquecimento em uma questão ainda mais relevante: não se trata apenas de impedir que o planeta chegue a determinada temperatura, mas também de evitar que o sistema climático seja obrigado a mudar rápido demais para conseguir acompanhar.

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