Em meio à corrida mundial por alternativas aos combustíveis fósseis, uma tecnologia começa a ganhar protagonismo como solução para descarbonizar setores difíceis de eletrificar, como mineração, siderurgia e transporte pesado: o hidrogênio verde. Na América do Sul, o Chile desponta como um dos países mais avançados nesse campo, combinando abundância de energia renovável, estratégia estatal clara e apoio financeiro internacional para se tornar um dos maiores produtores e exportadores dessa fonte limpa.
O que é o hidrogênio verde e por que ele importa

O hidrogênio verde é produzido a partir da eletrólise da água, um processo que separa hidrogênio e oxigênio usando eletricidade proveniente de fontes renováveis, como energia solar e eólica. Diferentemente do hidrogênio “cinza” ou “azul”, esse método não gera emissões de dióxido de carbono (CO₂), o que o torna essencial para reduzir o impacto ambiental de atividades industriais altamente poluentes.
Especialistas apontam o hidrogênio verde como uma das chaves para atingir metas globais de neutralidade de carbono, sobretudo em setores nos quais a eletrificação direta é inviável ou ineficiente. É nesse cenário que o Chile surge como um protagonista inesperado, mas estrategicamente bem posicionado.
As vantagens naturais que colocam o Chile na liderança
O principal trunfo chileno está em sua geografia. O país abriga alguns dos melhores recursos renováveis do planeta. O Deserto do Atacama, no norte, registra níveis de radiação solar entre os mais altos do mundo. Já a região da Patagônia, no extremo sul, oferece ventos constantes e intensos, ideais para a geração de energia eólica em larga escala.
Essa combinação permite que o Chile produza eletricidade renovável a custos muito baixos, fator decisivo para tornar o hidrogênio verde economicamente competitivo. Estimativas oficiais indicam que o país pode alcançar custos inferiores a US$ 1,50 por quilo de hidrogênio até 2030, um valor considerado altamente competitivo em escala global.
Uma estratégia nacional para virar potência energética
Em 2020, o Ministério da Energia do Chile apresentou a Estratégia Nacional de Hidrogênio Verde, com metas ambiciosas: posicionar o país como líder mundial na produção de hidrogênio de baixo custo e como um dos principais exportadores globais dessa energia limpa.
O plano prevê a instalação de grandes capacidades de geração renovável dedicadas à produção de hidrogênio, além de incentivos para atrair empresas internacionais, desenvolver infraestrutura logística e criar um ecossistema industrial associado, incluindo amônia verde e combustíveis sintéticos.
Bilhões em financiamento e apoio internacional

Para transformar a estratégia em realidade, o governo chileno avançou no campo financeiro. Em 2023, foi anunciado um fundo de US$ 1 bilhão voltado ao apoio de projetos de hidrogênio verde, com participação de instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Mundial e a União Europeia.
O objetivo é reduzir riscos para investidores e alavancar até US$ 12,5 bilhões em investimentos privados. Além disso, o Banco Mundial aprovou um empréstimo adicional de US$ 150 milhões para fomentar o setor, destacando que o Chile possui “atributos excepcionais” para desenvolver uma indústria competitiva de hidrogênio verde na América Latina.
Projetos em andamento e liderança regional
Os resultados já começam a aparecer. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o Chile concentra cerca de metade da capacidade potencial de hidrogênio de baixas emissões da América do Sul. Projetos de grande escala estão em desenvolvimento, especialmente nas regiões do norte e de Magallanes, consolidando o país como referência regional no setor.
Essa liderança também posiciona o Chile como fornecedor estratégico para mercados que buscam importar hidrogênio verde, como Europa e Ásia, onde a demanda por energia limpa cresce mais rápido do que a capacidade interna de produção.
Desafios regulatórios e obstáculos no caminho

Apesar do avanço, o setor enfrenta desafios relevantes. Em 2025, autoridades da região de Magallanes demonstraram preocupação com a paralisação ou cancelamento de alguns projetos, atribuídos a entraves regulatórios, licenciamento ambiental complexo e incertezas globais no mercado de energia.
Esses obstáculos mostram que o sucesso da estratégia chilena dependerá não apenas de recursos naturais e financiamento, mas também da capacidade do país de criar marcos regulatórios claros, previsíveis e ágeis.
Um papel-chave na transição energética global
Se conseguir superar essas barreiras, o Chile tem potencial para transformar profundamente sua matriz energética e assumir um papel central na transição global para fontes limpas. Mais do que atender à própria demanda, o país pode se tornar um exportador estratégico de energia do futuro, redefinindo sua posição geopolítica e econômica.
Em um mundo cada vez mais pressionado a reduzir emissões, o hidrogênio verde chileno pode deixar de ser apenas uma promessa — e se consolidar como uma das tecnologias que vão moldar a energia nas próximas décadas.
[ Fonte: Diario Uno ]