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Ciência

O planeta está girando mais devagar e os dias podem estar ficando mais longos

Um novo estudo indica que mudanças climáticas podem estar alterando algo fundamental no planeta: a duração dos dias. O fenômeno é minúsculo, mas tem implicações surpreendentes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Para a maioria das pessoas, um dia sempre terá 24 horas. Mas, na realidade, esse número é apenas uma aproximação. A rotação da Terra não é perfeitamente constante e pode sofrer pequenas variações ao longo do tempo. Agora, cientistas descobriram que um fenômeno ligado às mudanças climáticas pode estar influenciando esse processo. Embora a alteração seja extremamente pequena, ela revela algo importante sobre o impacto das transformações ambientais no planeta.

O fenômeno que está alongando a duração dos dias

O planeta está girando mais devagar e os dias podem estar ficando mais longos
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Pesquisadores da Universidade de Viena, na Áustria, e da ETH Zurich, na Suíça, identificaram que o aumento do nível do mar pode estar reduzindo a velocidade de rotação da Terra.

Quando a rotação do planeta diminui, mesmo que de forma quase imperceptível, o resultado é um aumento na duração do dia.

Segundo o estudo publicado na revista científica Journal of Geophysical Research: Solid Earth, os dias estão se alongando atualmente a uma taxa aproximada de 1,33 milissegundos por século.

Pode parecer insignificante, mas os cientistas destacam que essa variação é notável quando comparada à história geológica recente do planeta.

De acordo com os pesquisadores, esse aumento na duração do dia não tem precedentes nos últimos 3,6 milhões de anos.

A principal causa seria a redistribuição da massa de água nos oceanos provocada pelo derretimento das calotas polares e das geleiras de montanha.

Entre os anos 2000 e 2020, esse processo contribuiu diretamente para alterar, ainda que minimamente, a velocidade de rotação da Terra.

O exemplo do patinador que ajuda a entender o fenômeno

Para explicar o processo, os cientistas utilizam uma analogia simples.

Quando um patinador artístico gira com os braços junto ao corpo, ele gira mais rápido. Mas quando abre os braços, seu corpo se espalha mais e a rotação diminui.

Algo semelhante acontece com o planeta.

Quando o gelo derrete e a água se espalha pelos oceanos, a distribuição de massa da Terra muda. Isso faz com que a rotação se torne ligeiramente mais lenta.

O fenômeno ocorre porque a água liberada pelo derretimento das geleiras se redistribui ao redor do planeta, alterando o equilíbrio do sistema.

Até recentemente, os cientistas ainda não sabiam se esse tipo de efeito climático havia ocorrido em outros períodos da história da Terra com a mesma intensidade.

Como fósseis microscópicos ajudaram a revelar o passado

Para investigar essa questão, os pesquisadores recorreram a um tipo curioso de evidência científica: fósseis de organismos marinhos microscópicos chamados foraminíferos bentônicos.

Esses organismos vivem no fundo do oceano e deixam conchas que permanecem preservadas em sedimentos por milhões de anos.

Ao analisar a composição química desses fósseis, os cientistas conseguiram reconstruir variações antigas no nível do mar.

A partir dessas informações, foi possível calcular como essas mudanças teriam afetado a velocidade de rotação da Terra ao longo do tempo.

Para garantir maior precisão, a equipe utilizou um algoritmo matemático capaz de lidar com as incertezas naturais presentes em dados paleoclimáticos.

Os resultados indicaram que, ao longo de 2,6 milhões de anos, o crescimento e o derretimento de grandes calotas polares provocaram variações na rotação terrestre.

Mesmo assim, o ritmo atual de mudança se destaca na história recente do planeta.

Um sinal da velocidade das mudanças climáticas atuais

Segundo os autores do estudo, apenas uma vez nos últimos milhões de anos a variação na duração dos dias chegou perto do ritmo atual — cerca de 2 milhões de anos atrás.

Ainda assim, os pesquisadores afirmam que o fenômeno observado nas últimas décadas é particularmente rápido.

Para Benedikt Soja, professor de geodésia espacial da ETH Zurich, o aumento recente na duração do dia está fortemente ligado às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana.

Um dos fatores que intensificam esse processo é conhecido como feedback do albedo do gelo.

O gelo normalmente reflete grande parte da luz solar de volta ao espaço. Porém, quando ele derrete, expõe superfícies mais escuras de terra ou oceano que absorvem mais calor.

Esse aquecimento adicional acelera ainda mais o derretimento, criando um ciclo que reforça o processo.

Estudos recentes indicam que as geleiras estão derretendo cerca de 36% mais rápido do que há duas décadas, perdendo aproximadamente 273 bilhões de toneladas de gelo por ano.

Pequenas mudanças que podem ter grandes efeitos

Mesmo que o aumento na duração dos dias seja medido em milissegundos, ele pode ter consequências importantes em áreas que dependem de medições extremamente precisas.

Um exemplo é a navegação espacial.

Satélites, sistemas de posicionamento e missões espaciais precisam conhecer com grande precisão a velocidade de rotação da Terra para calcular trajetórias e posições com exatidão.

Qualquer pequena alteração nesse movimento pode afetar esses cálculos.

Os cientistas alertam que, até o final do século XXI, as mudanças climáticas podem influenciar a duração dos dias ainda mais do que a própria Lua, que historicamente é um dos principais fatores que afetam a rotação terrestre.

Quando os dias eram muito mais curtos

Curiosamente, a duração dos dias na Terra já foi bem diferente no passado.

Cerca de 600 milhões de anos atrás, durante o período paleozoico, um dia completo no planeta durava aproximadamente 21 horas.

Com o passar de milhões de anos, diversos fatores — como movimentos das placas tectônicas, redistribuição de continentes e formação de grandes massas de gelo — foram alterando gradualmente a velocidade de rotação do planeta.

Esses processos acabaram levando à duração média atual de 24 horas.

Hoje, a atividade humana pode estar introduzindo um novo fator nessa longa história geológica.

Embora o efeito seja pequeno, ele mostra como as mudanças climáticas podem influenciar até mesmo aspectos fundamentais do funcionamento do planeta.

[Fonte: Correio Braziliense]

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